“TROCÁMOS O ESCALÃO SÉNIOR PELA COBERTURA DA BANCADA”


Jaime Bandeira é o presidente da direção do Grupo Desportivo Recreativo e Cultural Ponterrolense, cargo que já ocupa à volta de 20 anos, nem sempre seguidos, mas neste milénio já deve ir no 15° mandato. Natural da Ponte do Rol cedo ganhou paixão pelo clube da sua terra, primeiro acompanhando os mais velhos e agora à espera que os mais novos também sigam o mesmo caminho.

Nesta entrevista o sócio com o emblema de ouro do clube justifica a suspensão da equipa sénior de futebol com a necessidade de terminar a cobertura da bancada, algo que resultou da situação de pandemia, sem receitas, mas que considera ser uma situação temporária.


Como é que começou essa paixão e ligação ao Ponterrolense?

Começa sempre por acompanhar os mais velhos. Depois vamos entrando nas coisas, ganhando gosto, há mais um objetivo a atingir e vamos ficando mais um ano e depois outro. Entretanto também começaram as obras no campo e, como fui eu que as comecei, tenho gosto em ver aquilo a crescer.


Já lá vão quantos anos?

Se calhar 15 ou 16 anos neste milénio, mas a primeira vez que entrei na direção foi em 1979, tinha eu 23 anos. Ao todo, com entradas e saídas, serão mais de 20 anos.


Provoca um grande desgaste pessoal e em termos familiares?

Os meus familiares são de cá e também gostam que as coisas andem. Não dou muita importância a isso, porque uma coisa completa a outra, faz parte da nossa vivência, temos o ano inteiro para estar com a família, não sou muito sentimental a esse nível. Depois não me chateia nada andar nisto, ando porque me apetece. É uma questão de compromisso, assumi e tenho de cumprir.


Fala do estádio como um marco que fica no clube, que o enche mais de orgulho. É uma obra que fica?

Como sou um homem de obras, toda a vida fui desenhador de construção civil, tive o privilégio de acompanhar a obra e deu-me gozo vê-la a nascer e acompanhar o seu crescimento aos poucos. Não se consegue fazer tudo ao mesmo tempo e isso dá-nos ânimo para irmos à procura de se conseguir fazer mais uma fase, com os apoios indispensáveis da nossa autarquia, bem como de amigos do clube.


Como é que teve esse ideia?

Não foi uma ideia minha, foi de um grupo de pessoas da terra e dentro da direção. Quando subimos à 3ª Divisão Nacional, há 20 anos, chegámos à conclusão que o nosso campo era muito pequeno. Daí surgiu a ideia de se fazer um novo, arranjar o terreno e assim foi. Esse terreno foi comprado pelo clube, custou 100 mil euros, e andámos de folha na mão a fazer peditórios aos sócios e com atividades de angariação. Muita gente trabalhou para isto.


Deixa-lhe saudades aquele campo dos Moinhos?

Sim, foi lá que nascemos e temos de ter respeito por quem o adquiriu. Imagino o que custou a aquisição daquele campo para se poder praticar desporto. Mas com o passar do tempo as exigências vão sendo outras e para haver mais ambição havia que criar melhores condições.


Foi palco de alguns dos momentos mais importante do Ponterrolense ao nível do futebol?

A todos os níveis. A subida à 3ª Divisão Nacional, a Taça de Portugal na terceira eliminatória com o Olhanense, as três taças da AFL, tudo no tempo que jogavamos no velhinho Campo dos Moínhos.



Era impossível continuar lá?

Era, não havia outra maneira. Ou nos reduzíamos só àquilo ou então tínhamos de partir para outro lado.


O Ponterrolense foi a única equipa do concelho a atingir os campeonatos nacionais, para além do Torreense. O que o marcou mais?

Desportivamente não há dúvida que todas as subidas, em especial à 3ª Divisão Nacional, e as conquistas das três Taças da AFL, aquelas duas finais na Malveira e a outra em Sintra foram espetaculares. O Ponterrolense em oito anos ganhou essas três taças, em 1999, 2005 e 2006.


Como é que se explica esse momento do clube. Houve algum investimento especial?

Não houve nada de especial, foram as condições da altura a nível da qualidade dos atletas. Foi uma fase boa que atravessámos, ou menos boa dos adversários, não sei, o certo é que dentro campo ganhámos e são conquistas que ficam na história do clube.


Sempre houve uma grande envolvência dos adeptos, mesmo quando os resultados não eram os melhores?

Sim, hoje nem tanto, mas naquela época sim. As circunstâncias da vida mudam, não se pode comparar, porque agora as pessoas têm outras coisas para fazer e dantes não tinham e iam mais à bola. A própria pandemia e estas coisas que aparecem afastam as pessoas, mudam os hábitos, o simples facto de ir ao café, que era um local de convívio, como na nossa sede, por exemplo, era sinónimo de ajuntamento de gente e com a pandemia deixou de ser, como os bailaricos e festas tradicionais da aldeia que não se podem fazer.


Foi essa falta de apoios que levou a direção a fazer uma pausa no futebol sénior?

Há que escolher as prioridades e neste momento, nesta fase complicada das nossas vidas, não era prioritário ter o escalão sénior, o prioritário era acabar a cobertura das bancadas. Digamos que trocámos o escalão sénior de futebol esta época pela cobertura da bancada. Muita gente não sabe, mas só a inscrição de uma equipa sénior na associação de futebol de Lisboa custa mais de cinco mil euros. Em tempos de pandemia colocámos uma cobertura na bancada, que envolve 60 mil euros. Juntando esses ingredientes todos, há dois anos que não se angaria um tostão, a própria desmotivação do pessoal que estava na direção e saiu, tudo isso junto levou a esse resultado.


Era similar o valor das duas coisas?

Era mais ou menos. Para termos dinheiro para uma coisa não podemos ter para outra.


Nos últimos cinco anos quanto é que custava o futebol sénior por época?

Em números redondos 40 mil euros.


Não havia hipótese uma equipa mais fraca só para competir?

Isso nunca se considerou porque sabemos como são competitivos estes campeonatos a nível distrital e estar ali a levar porrada não tinha sentido nenhum. A ideia é voltarmos com força e como deve ser, quando for oportuno, desde que haja gente disponível para fazer parte desta secção desportiva. É preciso que se perceba que as coisas são feitas por pessoas, se não há pessoas não há coisas. É preciso que haja empenhamento de pessoas nos órgãos sociais do clube.


Para quando está previsto voltar a equipa sénior?

Tem tudo a ver com o desenvolvimento da pandemia, vamos ver o que é que isto vai dar, se nos vai ser possível fazer as atividades que nos permitam angariar fundos para o sustento da modalidade. Porque não há aqui mecenas, a única forma de sustentar isto é angariar fundos com criatividade e organizar atividades, tasquinhas e esse tipo de eventos. Trabalhamos no verão para sustentar o inverno. Se a pandemia nos permitir voltarmos a fazer atividades e se houver gente disponível para isso, julgo que na próxima época podemos voltar. Temos os nossos juniores que são os seniores de amanhã.


É mais importante ter infraestruturas para dar uma boa base na formação, com condições, do que ter uma equipa sénior a competir?

Sobre isso não tenho dúvidas, primeiro está a formação, tudo o resto virá por acréscimo. Começámos esta obra em 2005 e nunca deixou de haver futebol sénior por causa disso. E até a ganhar taças. É uma situação pontual, portanto não vem mal nenhum ao mundo, é um interregno, mas não está parado, antes pelo contrário..


Essa decisão de trocar a equipa sénior pela cobertura das bancadas surgiu quando?

Foi na assembleia geral. Eu já tinha adjudicado a cobertura das bancadas, mas entretanto veio a pandemia. Ora se eu tinha o compromisso da cobertura e isto estava como estava, sem receitas, alguma coisa tinha de parar. Apresentei a minha lista e disse que não garantia haver futebol sénior, mas íamos esgotar as possibilidades até ao limite da data da inscrição da equipa. Como não se conseguiram patrocínios, era impossível. Mas, repito, é uma situação pontual. Em dois ou três anos estaremos lá em cima outra vez, a começar com os antigos dérbis da região.


O Ponterrolense não é só futebol. O atletismo é também importante para o clube?

É muito importante, faz parte da dinâmica desportiva do clube e é uma secção muito bem liderada pela vice--presidente Rita Duarte. Se há gente com vontade de praticar essa modalidade, cá estamos. Este ano até temos um treinador subsidiado que nunca tivemos. É importante este desporto amador e temos de garantir condições para a prática dessa modalidade, que tem levado o nome do Ponterrolense muito longe.


Que metas é que gostava ainda de ver alcançadas pelo clube?

O que me dava mais alegria era que entrasse uma direção de gente nova, porque o futuro é deles, dando-lhes eu todo o apoio e continuando a estar cá. Quando a pandemia acabar gostava que a malta se unisse e se disponibilizasse para a direção e desse continuidade a todo este trabalho, porque no fundo o clube foi fundado pelos avós deles e com nomes que muito deram ao clube.


O Pedro Caldas, um jovem da terra, já liderou uma direção...

Sim e eu fiquei todo contente por ele ter aparecido, mas no ano seguinte saiu. Já tenho inserido na minha direção malta nova, mas os mais velhos são indispensáveis. O Pedro Caldas e a sua geração têm de voltar, porque isto é deles, são o futuro disto, tal e qual eu fui o sucessor de outros mais antigos. O Ponterrolense precisa de gente nova, de ideias novas e se calhar de modernizar a gestão do clube mais consentânea com os dias de hoje.


Há muitos simpatizantes e adeptos que olham para si como uma bandeira, fazendo um trocadilho com o seu nome?

Não, eu sinto-me apenas mais um, porque o clube tem 80 anos e muita gente, muita mesmo, passou por aqui para chegar ao que é hoje. Há que agradecer e homenagear todos. Gostava que os fundadores vissem a grandeza e o património que o clube tem atualmente.


Mas as pessoas consideram-no importante no clube...

É natural, já aqui ando há tantos anos que até os adversários e rivais me conhecem como o ‘presidente do dois cavalos’, porque a gente ganha uma certa paixão às coisas e vamos ficando. Tem a ver com o meu envolvimento no clube, desde a construção da sede e toda a visibilidade nas festas e eventos organizados. Quando foi a festa dos 50 anos do clube, que coincidiu com a inauguração da sede, foi-me atribuído em sessão solene o emblema de ouro, sou o único com esse emblema, não por anos de sócio mas por dedicação. Teve a ver com o meu envolvimento no clube já naquela época, nomeadamente na construção da sede.


Qual é o próximo objetivo do clube?

Acabar a bancada, com cadeiras para dar mais conforto aos nossos associados, e trabalhar com a Junta de Freguesia de modo a que se possa dar início ao pavilhão gimnodesportivo, para o qual já temos terreno e projeto.


Quer deixar uma palavra aos sócios do clube?

Tudo aquilo que tem sido feito foi com o apoio dos sócios, desde sempre. Temos de pensar um pouco no passado porque isto foi feito por alguém e é preciso dar continuidade. Isto existe porque há sócios e é deles que o clube vive e eles têm sido excecionais. Só tenho a agradecer a confiança que têm em mim e em quem cá anda. Peço-lhes que continuem a apoiar o clube e nós vamos fazendo o melhor possível e que tenham orgulho no campo novo porque é uma infraestrutura desportiva importante, no património do clube.

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