SAPATEIROS: PROFISSIONAIS QUASE EM EXTINÇÃO



O sapateiro é aquele que com arte e maestria, manuseia artesanalmente: sapatos, sandálias, chinelos, botas, etc., dando-lhes a limpeza, o arranjo e o tratamento adequado que garanta o bem-estar dos pés.

Na sua origem era discriminado, comparado ao ofício de curtidores e carniceiros. O cristianismo fez com que essa situação se reverte-se com o surgimento de três santos sapateiros: Aniano, sucessor de São Marcos como arcebispo de Alexandria (século I), e os irmãos Crispim e Crispiniano, martirizados em Saisson sob Domiciano.

Fazendo um salto na história até aos dias de hoje... De um ofício passado de pai para filho, tornou-se numa profissão cada vez mais rara. E encontrar um sapateiro no Oeste não foge a esta regra que se estabeleceu na sociedade moderna.

Com isso, a busca por serviços de reparo e modificação em calçados fica concentrada naqueles que desenvolvem o ofício há pelo menos dez anos.

SAPATEIRO:

O ARTISTA DOS PÉS

Sete da manhã. O despertador emite um barulho repetitivo e ensurdecedor. Celso abre lentamente os olhos, senta-se na cama e desliga o frenético aparelho. Após fazer o sinal da cruz e entrelaçar os dedos das mãos, agradece por mais um dia e pede a benção do Divino. Na cozinha a mulher está com a mesa posta e, enquanto aguarda o marido, prepara-lhe o lanche. Celso senta-se à mesa e toma uma chávena de café passado com duas colheres de açúcar. Enquanto molha o pão com manteiga naquele líquido escuro e amargo, organiza mentalmente as tarefas do dia.

Quando os primeiros raios de sol começam a surgir no horizonte e os galos, ainda tímidos, iniciam a sinfonia matinal, Celso está pronto para iniciar mais uma jornada de trabalho. O doce beijo da esposa sinaliza o momento de partir. O caminho a percorrer até à sua oficina é curto...

As passadas lentas e compridas com que desce as escadas de sua casa, em Secarias (Silveira), levam-no em direção ao rés-do-chão, onde se localiza a oficina de calçados da Sapataria Herménio. Nome de seu falecido pai que durante várias décadas exerceu o ofício e o ensinou aos filhos: Celso e Francisco. Assim que chega ao seu destino, Celso fica por alguns minutos parado fitando a velha oficina, que fica num cantinho da loja que tem uma vasta área cheia dos mais belos e modernos modelos de sapatos, sandálias, chinelos, botas, etc.

A pintura esbatida da oficina revela a implacável ação do tempo. Um cantinho que guarda memórias que perduram em cada uma das duradouras ferramentas, autênticas relíquias dum passado marcado pela produção manual e que as transforma em ‘peças de arte’, retratando com orgulho o período próspero da sapataria.

Celso cumprimenta o irmão Francisco (que sucede ao pai na gerência), guarda a ‘bucha’ e veste o seu guarda pó creme claro manchado de cola. Já na sua mesa, afia a faca de corte com o charuto de pedra, pega um talão da prateleira e começa a cortar o couro marrom escuro conforme a referência indicada. Sua função é participar de todas as etapas de reparação do sapato.

Da maior para a menor numeração, sempre com a instrução de economizar, ele segue a dança da navalha sobre aquele espesso e duro pedaço de matéria prima. Outros tecidos mais finos entram na fila e, um a um, ganham forma, transformando-se em pilhas de forros e palmilhas.

Por alguns minutos, cai em grande nostalgia ao relembrar o professor do ofício que naquele mesmo local o exerceu durante décadas.

Desde muito novos, os irmãos começaram a ajudar o pai, especialmente Francisco que sempre esteve ao lado do saudoso senhor Herménio (muito afável e muito respeitado nas redondezas).

Aos dez anos de idade Chico, como é conhecido entre os clientes e amigos, começou a ajudá-lo encaixotando os pares de sapatos. Com o passar do tempo, aprendeu a cortar forros e palmilhas. Sempre sendo supervisionado de perto, tomou gosto pelo trabalho e iniciou os cortes com couro. “Desde muito novo que a minha vida está ligada a esta sapataria de família”, recorda-nos com nostalgia Francisco que hoje em dia tem a companhia do irmão no dia a dia. Outrora a vida levou Celso por outro caminho: desde novo trabalhou nas obras, onde chegou a ser encarregado. Mas, acabaria por regressar ao negócio da família há cerca de dez anos, quando o seu pai se reformou e encerrou com as atividades no atelier. Foi então que Celso assumiu o seu lugar na oficina.

“O meu pai sempre me disse que alguém que não faça mais do que lhe ensinaram, nunca será um bom profissional”, recorda o mais velho dos irmãos, sublinhando: “o segredo é a paixão pela arte, é ela que nos leva a ser criativos para conseguir satisfazer a necessidade do cliente”.

Celso (57 anos) acredita que, dentro de alguns anos, já não haverá mais profissionais do ramo no município de Torres Vedras. “Estimo de 10 a 15 anos para não haver mais sapateiros no concelho, pois não temos mais jovens que queiram aprender o ofício e continuar nesse ramo”, considerou. “Sou um dos sapateiros mais novos e acredito que depois de mim poucos irão surgir, pois os jovens já não querem essa profissão”, comentou. Ele calcula que existam atualmente dez a 15 profissionais no município.


Texto: Duarte Nuno Gomes

Fotos: Duarte Nuno Gomes e Arquivo

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