RUI NARCISO: "FUI QUEM MAIS VALORIZOU O TORREENSE DESDE ANTÓNIO MEDEIROS"



Um dos treinadores da região Oeste em destaque no futebol nacional, na última década, está afastado dos relvados desde o final da temporada passada. No momento em que espera o convite para um "desafio ambicioso" que o leve a regressar ao ativo, Rui Narciso recorda a melhor fase da sua carreira e sublinha que "quem vem do anonimato do futebol tem de fazer um trajeto diferente". Em exclusivo à revista 'Amor à Camisola'.

Depois de Torreense, Amora e Montijo, o que se segue? Neste momento é um pouco imprevisível. Estou sempre dependente dos convites que possam aparecer e se vão ao encontro do que gostaria. Continuo a ser, como sempre fui, um treinador ambicioso. Também, não estou a pensar em voltar a todo o custo ou a treinar apenas por treinar. Quero sobretudo encontrar um projeto de acordo com aquilo que são as minhas ambições para dar continuidade à minha carreira. Pode revelar a origem das propostas que recebeu entretanto? Tive quatro convites. Desde clubes do Campeonato de Portugal a um clube da primeira divisão da associação de futebol de Lisboa. Houve, também, uma abordagem da Liga 3. Mas, seria deselegante da minha parte mencioná-los. Entendi que não seriam os projetos ideais para continuar no imediato mas que podem vir a ser num futuro próximo. Falou-se que foi convidado a rumar aos Açores para representar o Rabo de Peixe, no Campeonato de Portugal, antes de ter ido para o Montijo. É verdade? Sim, é verdade. Bastante antes do início da época, o Rabo de Peixe fez-me chegar um convite. Porque não aceitou? Achei que o projeto não era suficientemente ambicioso para me fazer deslocar para S. Miguel e mudar a minha vida radicalmente.

É um treinador 'preso' à Grande Lisboa? Não diria que sou um treinador 'preso' à Grande Lisboa. Tenho outra atividade profissional que concílio com a de treinador de futebol. Para conseguir conciliá-las defini um raio de ação entre a Margem Sul [do Tejo] e Leiria. Só estando num patamar mais elevado ou num contexto de Liga 3 que de facto justifique, é que poderei fazer uma carreira profissional apenas enquanto treinador. Num projeto ambicioso e que me permitisse manter estabilidade financeira, estaria disposto a sair da Grande Lisboa. Ou seja, sendo um acréscimo para a minha carreira e simultaneamente possibilitasse zelar pela segurança da minha família. Onde se imagina a treinar daqui a dez anos? Gostaria de estar numa liga profissional mas tenho a perfeita noção do quanto é dificil alcançar. Quais as grandes dificuldades de conciliar o cargo de treinador nos nacionais com uma profissão no dia a dia? Dar o acompanhamento à família que esta merece e ausência de tempo para mim próprio. De há alguns anos a esta parte, levanto-me muito cedo para ir para o futebol. Depois vou do clube para a outra função profissional que tenho e chego a casa já tarde. Estou muitas vezes, três ou quatro dias em que não vejo a minha filha. Sacrifício grande para a família para eu poder estar envolvido numa paixão que é treinar futebol, isto obviamente também poderia acontecer se treinasse longe mas teria uma carga horária sempre inferior. É duro mas a paixão faz-me ser um homem mais preenchido e bem comigo mesmo.

O trabalho realizado no Torreense em 2016/17, incidindo à relação entre investimento e resultados desportivos e não só, é comparável num passado recente ao registo do mítico e saudoso António Medeiros em 1996/97. Como olha para essa comparação? É um facto de que analisando o investimento que foi efetuado no clube nos últimos 25 anos versus resultados desportivos/proveitos obtidos, não só ao nível dos resultados desportivos mas, também, daquilo que foi, realmente, toda a envolvência em torno do clube e inclusivamente a projeção de alguns jovens jogadores e de ativos dentro do próprio clube, desde António Medeiros, até aos dias de hoje, fui quem mais valorizou a marca Torreense. Não teve convites para dar o 'salto' para outro patamar no final de 2016/17? Houve abordagens através de intermediários, dum clube de primeira liga e doutro de segunda liga, mas os contatos não avançaram e não se concretizou.

O que o motivou a ficar no Manuel Marques, na temporada seguinte, sabendo que o investimento feito dificilmente lhe permitiria superar o registo anterior? Sim, tinha consciência de que tal seria muito difícil porque, além do investimento não ser superior, mantinha-se o objetivo de potenciar e valorizar os ativos chineses como base do projeto, para que o clube fosse completamente autossustentável. Apesar de ter algumas pessoas que me aconselharam a não renovar, nunca olhei para isso dessa forma, mas sim que estavam a acontecer coisas boas. Sentia-me bem onde estava, valorizado pelas pessoas que trabalhavam comigo, pelos adeptos e sobretudo feliz: desempenhava uma função pela qual sou apaixonado no clube da minha cidade pelo qual existirá sempre um sentimento especial. O convite do Pedro Canoa [diretor desportivo] para renovar surgiu cerca de três meses antes do final da época e como estava feliz, fazia todo o sentido aceitar e aceitei. Tendo em conta o que viria a ser o conhecido desenlace da sua ligação ao seu clube do coração... Acredita que, caso tivesse gerido doutra forma o momento em que estava em altas, poderia logo ali ter projetado a sua carreira para outros patamares? Estou convicto de que caso tivesse deixado em aberto o meu futuro até muito perto do final da primeira época, nessa altura poderiam ter surgido bons convites, eventualmente com projetos de subida, porque foi um ano desportivo de valorização, de visibilidade quer para os jogadores, estrutura, quer para o Rui Narciso, mas como disse anteriormente, na altura nunca pensei nessa gestão, pois estava feliz.

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"Quem vem do anonimato do futebol

tem de fazer um trajeto diferente...".

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Sente que um treinador desconhecido no 'mundo do futebol profissional' tem menos oportunidades para mostrar a sua competência?

Quem vem do anonimato do futebol tem que fazer um trajeto diferente, de maior crescimento, onde as oportunidades não vão surgir da mesma forma. Tem que fazer um trabalho de maior valorização e superação.

Na minha opinião, um bom treinador de futebol não tem obrigatoriamente que ter um passado padrão, tem sobretudo de ter vocação, venha de que vertente vier. Por outro lado, é natural que haja mais oportunidades para um ex-jogador profissional, são percursos diferentes, ainda que todas inclusivamente se possam, devam e acabam por se conciliar, dou o exemplo dum jogador que treinei enquanto adjunto do Elói Zeferino no Mafra: Nélson Veríssimo [treinador do Benfica]. Foi um jogador que antes de acabar a carreira já preparava o seu futuro como treinador, ou seja, além das vivências que foi adquirindo como profissional de futebol também investiu na sua formação académica, logicamente poderão abrir-se mais portas para iniciar a sua carreira de treinador.



O percurso histórico que trilhou na Malveira foi a sua porta para o futebol nacional. Quais as principais diferenças no processo de treino entre os distritais e os nacionais?

Adequar a nossa forma de ver o jogo e de operacionalizar o nosso jogo mediante aquilo que é a realidade do clube e dos intervenientes. Isto é, a exigência ao jogador do distrital tem de ser diferente de um jogador que é profissional ou semi-profissional. A ideia de jogo tem que ser adequada face à realidade em questão, aí reside a grande diferença.


Recomendado pelo treinador principal, Prof. Ricardo Monsanto, treinou os juniores do Torreense no escalão maior em 2008/09. Posteriormente, lançou vários jovens na ribalta: Stephen Eustáquio é o caso mais mediático. Trabalhar nas camadas jovens foi uma etapa importante da sua carreira?

Sem dúvida! Além de ser importante, foi de progressão, pois muitas vezes é nas adversidades que mais crescemos e melhor nos preparamos.

De outra forma, não tendo sido jogador de futebol profissional [foi guarda-redes, na antiga terceira divisão nacional, ao serviço do Ponterrolense], seria muito mais difícil, ainda, conseguir chegar ao patamar que já atingi.

Foi um processo de crescimento pelo qual tive que passar e de que me orgulho muito.



Texto: Duarte Gomes

Fotos: DR

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