RICARDO VENÂNCIO: "NÃO FOSSE ESTA PANDEMIA E ESTARÍAMOS A VIVER O MELHOR MOMENTO DOS ÚLTIMOS ANOS"

Em entrevista exclusiva à revista Amor à Camisola, o atual presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sport Clube Escolar Bombarralense fala do momento que a coletividade centenária atravessa, dos passos que foram dados nos últimos anos e o que gostaria de ver concretizado no futuro.

Ricardo Filipe Oliveira Venâncio, nascido em 11 de maio de 1989, é sócio do Sport Clube Escolar Bombarralense desde 16 de outubro de 1989. Praticou  futebol no Clube em todos os escalões da formação, terminando no final da época desportiva 2007-2008, para se dedicar exclusivamente ao curso de direito, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Em 2017, regressou à coletividade centenária (fundado em 05 de outubro de 1911) assumindo o cargo de vice-presidente da Direção, onde permaneceu durante três anos (saiu no final de junho último, por motivos pessoais e profissionais). Desde as eleições do passado dia 05 de junho que foi eleito presidente da Mesa da Assembleia Geral do Clube.

Que momento atravessa o Sport Clube Escolar Bombarralense?

- Não fosse esta pandemia que fez suspender as nossas atividades desportivas e estaríamos hoje a viver o melhor momento dos últimos anos na vida do nosso Clube, não tenho dúvidas. 

Nos últimos anos o Clube tem-se estado a reerguer. Fale-nos sobre esse processo.

- O Clube já se encontrava num caminho ascendente quando fomos eleitos, fruto do trabalho de direções anteriores, presididas pelo Fernando Tiago.

Contudo, quando fomos eleitos, em junho de 2017, encontrámos um Clube com algumas dificuldades.

Ao nível da gestão, o Clube estava segregado em diversos “mini-clubes”, em que cada secção desportiva se geria sobre si mesma, com conta bancária própria.

Ao nível desportivo, encontrámos o Clube com cerca de trezentos atletas e sem resultados desportivos dignos de registo nos últimos anos, com exceção da patinagem artística, que já contava com títulos distritais e pódios nacionais.

Ao nível associativo, encontrámos um Clube a precisar de confiança: dos sócios, dos simpatizantes e dos patrocinadores.

Ou seja, o desencanto era geral e notório fruto, talvez, de anos sucessivos de dificuldades financeiras provocadas por heranças diretivas de exercícios anteriores. Com efeito, as dificuldades foram o reflexo da aposta na profissionalização do futebol sénior que, pese embora tenha rendido alguns resultados desportivos, atirou o clube para uma situação financeira muito difícil nos anos seguintes.

O reerguer – no que toca à Direção da qual orgulhosamente pertenci – começa com a eleição de uma equipa grande (em quantidade e qualidade), composta por muita gente nova e com muita vontade de mudar: mudar a forma de gerir, mudar a forma de envolver e mudar a forma de fazer crescer o Clube.

De gerir, porque procurámos, com as primeiras receitas, saldar os saldos pendentes que existiam; centralizar todas as secções à volta da Direção, encerrar todas as contas bancárias que existiam à margem da conta geral do Clube para que tudo passasse pela Direção e, principalmente, pelo crivo direto do presidente; introduzindo a obrigatoriedade de todas as secções elaborarem orçamentos anuais e prestarem contas (ao mês) em reunião de Direção. Foi uma grande bandeira do Jorge Filipe Silva (presidente) a que todos nós anuímos sem exitar.

De envolver, porque procurámos ter à nossa volta todos quantos gostam do Clube, fosse nas atividades, no dia a  11dia ou na gestão diária do Clube.

De fazer crescer porque, alcançada essa confiança na mudança em torno de um crescimento sustentável e em prol do Clube como um todo – e não apenas numa equipa de futebol sénior, por exemplo, como chegou a acontecer por diversas vezes no passado –, fomos sendo merecedores da confiança dos patrocinadores, dos atletas, das suas famílias, dos sócios e dos simpatizantes, de uma maneira geral.

Tudo somado, conseguimos, a partir da nossa já grande equipa, em 2017, formar uma equipa muitíssimo maior de tantos e tantas bombarralenses que, monetariamente ou a partir da sua força humana, nos ajudaram nesta missão de reerguer o Sport Clube Escolar Bombarralense.

O que destaca do trabalho desenvolvido?

- A qualidade humana e técnica da equipa que compôs as duas Direções em que exerci os meus mandatos;

- A centralização de toda a tesouraria do Clube (e das secções desportivas) na Direção, principalmente, no tesoureiro e no presidente;

- A unificação de uma imagem. Desenvolvemos uma linha de roupa no Clube, que estendemos a todas as modalidades, desde os mais novos aos mais velhos: equipamentos de treino e roupa de saída (para provas) iguais para todos os atletas. Desenvolvemos uma linha de merchandising, desde sacos desportivos, chapéus-de-sol, chapéus-de-chuva, mochilas, etc., tudo artigos personalizados de igual maneira com as insígnias do Clube.

- A igual importância como a Direção olhou sempre para todas as modalidades do Clube, sem discriminar umas em detrimento de outras e o grande trabalho que cada diretor de secção desempenhou em prol das suas equipas;

- A dimensão dos festivais em que participámos, que cresceram ano após ano, graças não só à tremenda mobilização dos nossos atletas, staff, familiares que nos ajudaram sempre a crescer, como também todos aqueles que nos visitaram;

- O investimento contínuo na reabilitação da sede: obras estruturais;  requalificação do restaurante; criação de ginásio de recuperação para os atletas e de uma sala de artes marciais; recuperação da biblioteca; requalificação da sala da Direção e da Secretaria; substituição de parte das lâmpadas existentes por leds; recuperação do reclame luminoso do Clube na sede; afagamento e pintura da nave do Clube.

- A aquisição de uma viatura para transporte de atletas;

- Investimento ao nível de equipamentos desportivos para os atletas;

- Investimento ao nível do melhoramento dos recursos humanos do Clube, seja ao nível da secretaria seja ao nível dos treinadores e coordenadores desportivos;

- A alteração aos estatutos do clube, que permite hoje estarem atualizados com o que é a realidade dos nossos dias;

- A criação de novos cartões de sócio;

- A reabilitação e modernização da página de facebook do Clube, que faz com que hoje seja uma das páginas desportivas dos clubes do distrito com mais interação;

- O aumento de atletas. Hoje contamos com cerca de quinhentos atletas a praticar desporto no clube.

- O aumento de modalidades no clube. Desde que tomámos posse acrescentámos ao leque de modalidades existentes no Clube o Judo, o Karaté, o Yoga e, mais recentemente, o Badminton;

- A solvabilidade do Clube, que nos permitiu trabalhar sem asfixia financeira, conciliando a boa gestão da tesouraria com o constante investimento em todas as nossas modalidades e na sede.

A formação é a grande prioridade do Clube a nível do futebol, correto?

- Correto. Seja no futebol ou em qualquer outra modalidade. Este Clube, sendo escolar, tem por desígnio promover o desporto para os mais novos. Era essa (e continua a ser) a tónica da atual Direção. 

Foi também para ajudar no desenvolvimento do futebol juvenil que, no meu segundo ano de Direção, cumulei as funções da vice-presidência com a pasta do Futebol Juvenil. Volvido aquele ano de muito trabalho de muita gente que esteve à minha volta de forma totalmente voluntária e a quem agradeço, conseguimos aumentar a capacidade financeira da secção para a podermos desenvolver o melhor possível, não só para que conseguíssemos (como estamos a conseguir) voltar a ter todos os escalões em atividade como a conseguir dotar a nossa secção de melhores condições desportivas e recursos humanos mais capacitados. 

Sabíamos que só assim poderemos voltar a ter equipas da formação na principal divisão distrital e, por conseguinte, poderemos formar plantéis de futebol sénior com a base da nossa formação, garantindo não só a permanência da "mística" mas também a sustentabilidade financeira do Futebol. 

Neste meu último ano, cumulei as funções da vice-presidência com a pasta do Futebol Sénior e sinto que também cumpri com as expectativas, novamente com a ajuda de toda a estrutura, patrocinadores e atletas. Este caminho, por estar nas duas secções em dois anos seguidos permite-me hoje dizer que o futebol juvenil e sénior estão hoje em muito boas mãos (em termos diretivos como desportivos) e tem uma base sólida que lhe permitirá continuar a crescer nos próximos anos. 

Mas, o Bombarralense tem orgulho de ser um Clube eclético, não é verdade?

- Sim. É parte da sua história. Já teve atletismo, hóquei em patins, ciclismo, voleibol, acrobática, ténis de mesa. Provavelmente, estarei a esquecer-me de alguma(s) modalidade(s). Hoje, tem futebol, futsal, patinagem artística, dança, ginástica, judo, karaté, yoga, manutenção e badminton. Arrisco-me a dizer que no país, à nossa dimensão e perante a nossa realidade populacional, geográfica, económica e de parcos apoios públicos, duvido que existam muitos Clubes que se possam orgulhar deste percurso e do presente que vivemos.

Sente que os Bombarralenses voltaram a aproximar-se do Clube nos últimos anos?

- Sem dúvida alguma. Está à vista de todos e é sentido por todos. Se um dia alguém tiver oportunidade de fazer o levantamento de todos os bombarralenses que já foram atletas ou dirigentes do S.C.E.B., arrisco-me a dizer que um terço da população do concelho do Bombarral já passou ou ainda passa pelas instalações ou atividades desportivas/diretivas do Clube. É um legado geracional, uma história que se mistura com a história do nosso concelho. E se hoje o Clube vive tempos de harmonia diretiva, financeira e desportiva, também pode dizer que vive um bom período de aproximação dos sócios e dos simpatizantes às diversas atividades do Clube. É continuar!

O trabalho que as últimas direções fizeram foi a chave para devolver a identidade ao Bombarralense?

- O trabalho de todas as direções, ao longo da história, contribuíram para a identidade que o Bombarralense tem e a vitalidade que nunca deixou de sentir. Todas. Todas as direções, ao longo dos quase 109 anos de história de vida do S.C.E.B., têm duas coisas em comum: os seus dirigentes foram voluntários e fizeram o melhor que souberam/puderam em prol do nosso Clube. É nisso que acredito e só isso me permite dizer, orgulhosamente, que o nosso Clube nunca parou a sua missão e o seu desígnio em toda a sua vida. Passou pela primeira república, pela ditadura, pela revolução de abril, por três insolvências do nosso país mas, com maiores ou menores dificuldades, nunca deixou de servir nem de cumprir a sua missão em prol dos bombarralenses. É este o seu maior legado: a “Mística” que temos obrigação de preservar e continuar a transmitir aos mais novos. Ainda o Bombarral não era sede de concelho e já o Bombarralense existia e cumpria o seu papel.




Estou totalmente certo que o trabalho que esta Direção, que abraça agora o terceiro mandato na liderança do Jorge Filipe Silva, irá deixar um legado muito importante para a história do nosso Clube, não tenho qualquer dúvida.

Num Clube centenário como o Bombarralense seguramente existem na sua longa história muitos momentos inolvidáveis. Quais os que o enchem a si de maior orgulho enquanto Bombarralense?

- A nível pessoal, num Clube tão rico em história e em vida, os meus momentos pouco acrescentam, até porque completei há bem pouco tempo 31 anos de vida e completarei no próximo mês de outubro 31 anos de sócio. Fui atleta de futebol da formação no S.C.E.B de 1998 a 2008. Durante esse período, o S.C.E.B, e principalmente, o “San Siro” [Campo de Jogos do Sport Clube Escolar Bombarralense], foram a minha segunda casa, foi neste Clube que fiz parte dos meus melhores amigos e foi neste Clube que aprendi valores que levo comigo para a vida como o companheirismo, a solidariedade, a responsabilidade, o respeito pelo outro, pela autoridade, o aceitar da derrota e através dela procurar sempre melhorar para alcançar a vitória. 

Ao nível dos momentos desportivos, guardo com especial carinho a participação e o quarto lugar alcançado no torneio de futebol em França, em 2000, a minha presença na seleção distrital de Leiria nos escalões de sub-17 e sub-18, a lembrança de muitos dos golos que marquei com as cores do S.C.E.B e a conquista da primeira e única taça distrital de Leiria do nosso Clube no escalão de Iniciados, em 2004. Fui capitão de equipa em mais de metade dos anos em que joguei futebol no Clube. Vivi a “mística” de uma maneira muito vincada.

A acrescer e mais importante que tudo isso, os amigos que fiz no nosso Clube e nos outros clubes contra quem jogávamos e que trouxe comigo para a vida.

Do presente, levo comigo os últimos 3 anos na Direção do nosso Clube, pelo que vivi e pelas pessoas (atletas, staff, pais, colegas) que conheci dentro e fora da sala da Direção.

Quando fui eleito não tinha confiança praticamente com nenhum dos meus colegas de Direção mas não só me acolheram da melhor maneira como foram para mim um exemplo de entrega, de trabalho, de capacidade e de solidariedade. Ficarei sempre agradecido a todos e em especial ao presidente pela oportunidade, confiança e lealdade. Aprendi muito com ele (e com todos os meus colegas) e é pela amizade que temos e a relação que construímos ao longo desta "jornada" que não consegui recusar o desafio que me fez em apresentar uma candidatura ao cargo de presidente da Assembleia Geral do Clube, que espero vir a exercer da melhor maneira possível, ao lado dos meus colegas da Mesa a quem agradeço a confiança depositada, com vista a corresponder às expectativas dos nossos sócios.

O que gostaria de ver concretizado na coletividade imediatamente?

- A reabilitação do “San Siro”.

E a curto e médio/longo prazo?

- A curto prazo espero ver uma participação maior ao nível do apoio político e financeiro por parte do município face ao que hoje existe, que considero ser manifestamente insuficiente face à realidade e importância que o S.C.E.B no desenvolvimento da atividade desportiva e pedagógica no Bombarral.

A médio/longo prazo a “profissionalização” dos corpos diretivos do Clube ou a introdução de uma qualquer regalia/apoio social/fiscal em prol da figura do "dirigente associativo." Na correria dos dias de hoje, ou os nossos decisores políticos nacionais começam a discutir a “profissionalização” dos dirigentes desportivos (como aconteceu com os treinadores e coordenadores desportivos) ou a atribuição de uma qualquer regalia fiscal/social (como as majorações no IRS, incentivos fiscais, ou outras) ou as coletividades/associações ficarão sem pessoas para as dirigir num curto espaço de tempo.

O voluntarismo terá (ainda maiores) dificuldades de sobrevivência no futuro, se as condições permanecerem como estão. Sendo jovem, conheço a dificuldade em motivar colegas meus para o voluntariado, ainda para mais a este nível tão exigente e sob enormes responsabilidades, porque a vida e o bem-estar de centenas de jovens passam pelas nossas mãos como também passam muitos milhares de euros que é preciso saber gerir. Hoje, a gestão de uma associação como o S.C.E.B., deve assentar num modelo o mais profissional quanto possível e isso, claro está, exige a presença e intervenção de pessoas qualificadas e habilitadas. 

Por motivos profissionais teve de reajustar o tempo que dedica ao Bombarralense. Custou-lhe tomar a decisão?

- Claro. Foram alguns meses a pensar antes de tomar esta decisão, que comuniquei primeiro ao presidente da Direção, no final de 2019 e, no início de 2020, aos restantes colegas de Direção. Mas, nesta fase da minha vida, não podia ser de outra maneira.

Gostaria de um dia de ser presidente do Bombarralense?

- Após o que vivi e aprendi nos últimos anos, sinto reunir condições, caso um dia se proporcione ou seja necessário e eu tiver disponibilidade e capacidade para formar uma equipa com essa finalidade. Não digo que não, mas não vislumbro que venha a acontecer num futuro próximo. Talvez, se um dia tiver filhos e forem atletas do Clube, possa pensar nisso. Para já, não está no meu horizonte. 



É o seu clube do coração?

- Sem dúvida.


Que palavra deixa aos Bombarralenses?

- Continuem a acreditar nesta Direção e no projeto que estes homens e mulheres têm para o Clube, porque quem acredita está sempre mais perto de conseguir. E juntos, podemos fazer sempre mais e melhor.

JUNTOS SOMOS MAIS FORTES!



Texto: Duarte Nuno Gomes

Fotos: Direitos Reservados



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