QUADROS COMPETITIVOS NO FUTEBOL JOVEM: UMA BREVE REFLEXÃO


A prática desportiva é potenciadora do desenvolvimento de valores essenciais nos jovens, como a auto estima, a pontualidade, a assiduidade, o respeito pelos outros, o espírito coletivo, a entreajuda, a superação, para além de todos os outros que dizem respeito ao crescimento físico e que contribuem para o desenvolvimento das capacidades físicas dos jovens e do gosto pela prática desportiva. Neste sentido, a competição como momento de “aferição/confrontação com os outros” é muito relevante para a consolidação de todos estes valores, pois é onde os jovens têm de se superar, de colocar toda a sua energia, e onde conseguem ver o resultado do seu esforço diário, desde que esta seja ajustada ao seu nível e que esta organizada corretamente, porque senão pode ter o efeito contrário, o que infelizmente ainda ocorre muitas vezes.

O professor João Quina, em 2003, num artigo da Revista Horizonte intitulado “A competição desportiva para crianças e jovens”, abordou um conjunto de preocupações e apresentou também um conjunto de propostas de contributo para a melhoria das competições nos jovens, passados cerca de dezassete anos, o seu artigo contínua muito atual, pelo que recomendo a sua leitura. Dois problemas por ele elencados para além de persistirem atualmente, na minha opinião ainda se agudizaram, nomeadamente o clima da competição (onde pais fazem uma pressão enorme sobre os jovens, sobre os treinadores, sobre os árbitros e muitas vezes sobre as equipas adversárias, e também os próprios treinadores e clubes fazem uma pressão enorme sobre os jovens, numa ânsia de quererem ganhar a qualquer custo) e desequilíbrio entre o nível das equipas (com muitos jogos, principalmente nos escalões mais novos, como infantis e benjamins, a apresentarem resultados escandalosos, do género 25 a 0 ou 30 a 0, que não são benéficos para nenhum dos intervenientes do mesmo).

Relativamente ao clima da competição da competição, nos últimos anos apesar de continuar a ser preocupante, já estão em andamento algumas medidas implementadas pela Federação Portuguesa de Futebol em conjunto com outros organismos nacionais e internacionais, nomeadamente o IPDJ, a UEFA, a FIFA, que têm desenvolvido programas como a questão do Fair Play, a Bandeira da Ética, o cartão Branco, etc. Neste particular também o processo de certificação dos clubes enquanto entidade formadora, tem contribuído, através da realização de ações de formação/sensibilização com os pais, com os atletas, com os treinadores e dirigentes. São medidas que vão demorar algum tempo a surtir efeito, mas penso que vão melhorar nos próximos, assim espero.

Sobre o desequilíbrio do nível das equipas que é o motivo maior da realização desta crónica, também penso que já começa a haver mais sensibilidade e algumas associações distritais também já começam a criar estratégias de ajustar as competições em alguns escalões, principalmente na iniciação (escalões de traquinas, petizes e benjamins), o que é muito positivo, mas ainda vemos muitos resultados desnivelados que não promovem aprendizagem, pois não dão motivação a nenhum jogador, uma vez que não são desafiantes e desse modo significa que não estão a concorrer para o objetivo pretendido, que é o desenvolvimento de valores fundamentais para os jovens e também não contribuem para o desenvolvimento dos jovens enquanto jogadores de futebol. Nesse sentido, conjuntamente com um aluno de mestrado da minha escola, Daniel Bairreira treinador da Escola Academia Sporting de Torres Vedras, fomos analisar algumas competições de modo a ver qual a percentagem de jogos desnivelados que nelas ocorrem (entendemos como jogos desnivelados quando uma equipa ganha por uma diferença superior a três golos). Para iniciar fomos analisar os resultados das últimas três épocas nos diferentes campeonatos distritais de Lisboa dos escalões de Sub14, Sub15, Sub16 e Sub17 e obtivemos os seguintes resultados:

Por esta tabela em cima, verificamos que quase um terço dos jogos apresentam resultados desnivelados, sendo que no escalão de Sub14 esse valor de 3 épocas é de 40%, não querendo extrapolar para outras associações, mas pensamos que os resultados não devem ser assim tão diferentes.

Depois e como tínhamos alguma curiosidade fomos ver duas competições de referência: a Primeira Liga Portuguesa e a Premier League Inglesa, de modo a perceber se apresentavam valores diferentes, os resultados foram os seguintes:

Quando analisamos o quadro em cima, vemos que nas competições profissionais analisadas a percentagem de resultados desnivelados, baixa consideravelmente, o que era expetável, pois o nível é muito mais idêntico entre as equipas. Curiosamente, e apesar de toda a discussão relativamente à diferença de orçamento e qualidade das equipas da liga portuguesa, os resultados indicam que existem muito menos jogos desnivelados que na liga inglesa.

Os resultados apresentados, fazem-nos pensar que temos de alterar os quadros competitivos nos escalões de formação. Na próxima crónica, contamos apresentar alguns exemplos do que é realizado noutros contextos e também indicar algumas propostas de organização das competições.


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