O FIM DOS NÚMEROS 10?

Atualizado: Jul 1



Pelé, Zico, Maradona, Platini, Rui Costa, Zidane, Riquelme, Deco, Ronaldinho Gaúcho, Aimar, Ozil, James… Números 10, os “mágicos”, os criativos, os imprevisíveis, os jogadores de nota artística e virtuosismo, os dribladores por excelência, os maestros, os cérebros construtores de jogo, aqueles que enchem o campo com a sua genialidade sem serem avançados nem propriamente médios e tratam a bola com uma delicadeza ímpar. Uma espécie infelizmente em extinção.

Nos atuais sistemas taticos, são peças que deixaram de se encaixar. Num 4-3-3 o meio campo é normalmente preenchido por um trinco e dois médios interiores (uma espécie que em sentido inverso foi recuperada), enquanto num 4-4-2, jogam no miolo, por norma, também um pivô mais defensivo e um box-to-box. Sendo estes dois os sistemas táticos mais utilizados nos dias que correm, o número 10 deixou de praticamente existir, não obstante, como resquício, muitos auto-endeusados craques ainda envergarem esse número nas costas.

Quintero, na sua passagem pelo Porto, foi bem exemplificativo desse fenómeno de desaparecimento do 10 no jogo. Na “era Lopetegui”, que não consagrava a presença de um 10 no seu 11, o colombiano acabou por ser encostado à linha, uma opção que não vingou, tendo este pequeno génio sido sucessivamente emprestado e chegado mesmo a ponderar arrumar as chuteiras para se dedicar à música. Felizmente para si e para o futebol, viria a encontrar uma equipa onde conseguiu se reencontrar, mais concretamente o River Plate, equipa mítica do futebol argentino, futebol tão pródigo fabricante de números 10, reaparecendo no último Mundial como uma das estrelas dos “cafeteros”.

Ozil e James também têm sofrido do mesmo mal. Também eles têm sido frequentemente encostados às alas, ao passo que Deco nos últimos anos da sua carreira teve que recuar taticamente, tendo se tornado uma espécie de 8.    De resto, as marcações mais incisivas e apertadas que são usadas no futebol moderno retiraram o espaço necessário aos números 10 para explanar o seu futebol e libertarem a sua genialidade. É assim o futebol moderno, um futebol de pressing, em que o tempo para pensar é muito curto, o que tem prejudicado de forma particular os futebolistas brasileiros, fantasistas por natureza, que quando conseguem o seu contrato de sonho na Europa acabam por vezes por não se conseguir adaptar a um estilo de jogo que sufoca o seu talento. Por outro lado ainda, o número 10 clássico, não era, por norma, um jogador propriamente colaborativo no processo defensivo, uma atitude que é quase impensável no futebol atual, pelo que muitos treinadores acabam por prescindir de jogadores dessa índole.

Há alguns meses atrás, Sérgio Conceição, fazendo jus ao número que Nakajima utiliza nas costas, colocou-o a jogar com uma espécie de “vagabundo”, algo semelhante a um número 10, surgindo assim uma réstia de vislumbre relativamente à utilização de um jogador com esse perfil numa equipa de topo do campeonato nacional. Uma réstia que, de resto, se apagou, pelo menos para já, enquanto o japonês se recusar a voltar aos treinos.  

“Mascarados” como “vagabundo”, “falso 9”, 8 mais avançado ou encostado à linha, os jogadores com ADN de 10 vão continuar, por certo, a existir. Quase de certeza já sem as funções clássicas e o perfil que caracterizavam um 10 no passado, é um facto, mas por outro lado, a libertarem o tão necessário perfume do seu futebol nos relvados…  


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