top of page

MARCO ALMEIDA: "O LOURINHANENSE DEU-ME ASAS PARA VOAR"

Atualizado: 28 de nov. de 2022

Barreiro, meados da década de 80 do século passado... Marco atravessa o Tejo para correr atrás do sonho de ser profissional de futebol no seu clube do coração. Com dez anos é escolhido, entre centenas de crianças, numa altura em que só os craques envergavam a camisola dum clube grande, para ficar em Alvalade e passar a jogar de leão ao peito.

Depois de cumprir toda a sua formação no Sporting Clube de Portugal (Sporting CP), tendo representado todas as seleções nacionais até aos sub-21, Marco Almeida cumpriu o sonho de ser campeão nacional em 1999/00. Emigrante em Inglaterra, Espanha e Chipre, o defesa-central que, em certo dia, não aceitou o convite para ir para a Luz, por considerar ser uma "traição" ao seu clube do coração que o formou como Homem e enquanto jogador, sente orgulho da carreira que fez e não esquece a sua passagem pela Lourinhã, onde voltou a viver passados 25 anos e confessa que vê com bons olhos um dia poder regressar ao Sporting Clube Lourinhanense (SC Lourinhanense): o clube que lhe deu asas para voar. Em entrevista exclusiva à revista 'Amor à Camisola'.

Lembra-se de quando teve o seu primeiro contacto com a bola?

Não me recordo, mas por aquilo que os meus pais me contam comecei a brincar com a bola desde muito cedo, como qualquer miúdo. Com cerca de quatro anos, já dormia com uma bola, só queria mesmo jogar à bola.

__________________________

O meu pai agarrou em mim e levou-me para Alvalade...

fui escolhido eu e outro rapaz no meio de largas centenas".

__________________________


Como surgiu a oportunidade de ingressar nas camadas jovens do Sporting CP?

Comecei a jogar futebol no clube da minha rua (freguesia de Santo André no Barreiro), que ainda existe o Grupo Desportivo Independente, nos torneios de futebol de salão e outros torneios que se faziam na altura. Com os meus dez anos, o meu pai leu num jornal que o Sporting CP estava a fazer captações para os infantis e nem me perguntou nada, agarrou em mim e levou-me para Alvalade, nesse dia. Lembro-me, perfeitamente, como se fosse hoje, uma viagem interminável e cheguei lá e estavam centenas de miúdos para captações. No antigo Estádio José de Alvalade a fila vinha desde a porta 10 A até ao antigo pavilhão. Foi uma triagem que se foi fazendo, os treinadores eram César Nascimento e Osvaldo Silva. Cada dia que ia passando eles davam uma senha e iam fazendo a triagem para o dia seguinte e assim sucessivamente... Nessa época dos infantis, fui escolhido eu e outro rapaz no meio de largas centenas.

Que sentiu por ter sido escolhido?

Acima de tudo, senti um grande orgulho porque sempre fui sportinguista, tal como a maioria da minha família. Com dez anos, não tinha a noção da grandeza do clube, mas sabia que era um clube grande.

Treinavam num pelado...

O Sporting CP só tinha dois campos. O campo principal onde os seniores jogavam e esse pelado que era utilizado pela formação. Treinei ai desde os infantis aos juniores, onde chegávamos a ter dois e três escalões a treinar ao mesmo tempo. É claro que hoje em dia não há comparação em termos de condições, mas o Sporting CP sempre fez um bom trabalho ao nível das camadas jovens.


Em termos físicos já era um jogador diferenciado.

Era um bocadinho mais alto do que os outros (risos).

Afirmou-se por impedir golos na sua baliza, mas ao início queria era jogar na área contrária.

Verdade (risos). O meu pai também jogou futebol e era ponta de lança e eu como qualquer miúdo quis seguir as pisadas do meu pai. Desde que cheguei ao Sporting CP perguntaram-me qual era a posição e eu disse que era ponta de lança. Ainda, fiz um ou dois treinos nessa posição, mas depois o Oscaldo decidiu colocar-me a defesa-direito que foi a posição que ocupei no primeiro jogo que fiz pelos infantis do Sporting CP num torneio em Santarém. Em iniciados e juvenis comecei a jogar na posição de trinco que hoje em dia se designa por 'seis' e sempre fiz essa posição até ao primeiro ano de sénior.


Para um menino que vivia no Barreiro, como foi a adaptação a uma cidade grande e a novos amigos?

Ao princípio foi complicado. O meu pai foi mais uma semana comigo para me ensinar o caminho depois tive que me virar sozinho, até porque os meus pais trabalhavam e não tinham essa disponibilidade de me levar todos os dias. Apanhava o barco no Barreiro até ao Terreiro do Paço e depois apanhava o autocarro para Alvalade.

Quando sentiu que ia ser jogador profissional?

A partir do momento que entro num clube como o Sporting CP e que começo a perceber onde estava inserido, que as pessoas acreditavam em mim, comecei a pôr na cabeça que queria ser profissional de futebol, custasse o que custasse e assim foi: um trajeto longo, duro, com o apoio do Sporting CP e especialmente dos meus pais. Felizmente consegui concretizar esse sonho.


A primeira chamada à seleção nacional.

Foi nos sub-15 num jogo em França.

Que significado teve?

Quando chegamos a um patamar de seleção nacional temos a noção que estamos inseridos num grupo de cerca de vinte jogadores que são os melhores do pais. Há qualquer coisa que difere dos outros.

Na transição de júnior para sénior dá-se a vinda para a Lourinhã...

O Sporting CP sempre nos educou que isso ia acontecer. Seria uma mais-valia para nós em termos de crescimento. Sempre houve a dificuldade da transição do futebol formação para o futebol sénior. A vinda na altura para o SC Lourinhanense, que era o clube-satélite do Sporting CP deu-nos essa oportunidade de fazer essa tal transição do futebol formação para o futebol sénior. Vi isso como vantagem.

Apesar da tenra idade, eram jogadores mediáticos e 'estrelas' a emergir no futebol português. Como foram recebidos?

Fossem os jogadores vindos do Sporting CP ou os jogadores da terra sempre fomos tratados da mesma maneira. Sempre tivemos as melhores condições quer de treino, quer de logística.

Algum episódio engraçado?

Não é fácil ter um grupo de cerca de 15 jovens na flor da idade. Houve algumas situações que nos portámos menos bem, fugíamos para sair à noite mas sempre fomos castigados e postos na linha (risos). Sempre se tentou colmatar essa rebeldia dentro das quatro linhas.


Na altura era mais difícil para um jovem afirmar-se em Alvalade?

Sim. O Sporting CP sempre apostou na formação, como por exemplo, em Futre, Peixe, Figo, entre outros, mas não se dava oportunidade a muitos jogadores jovens. Nos últimos anos, cada vez mais se lança jovens na equipa principal.

Foi-lhe dada a oportunidade para conquistar um lugar na equipa principal?

Das vezes que fui chamado à equipa principal correspondi. No primeiro ano tive oportunidade de fazer cinco jogos em que marquei dois golos como defesa-central, mas se não jogava com mais regularidade tinha que respeitar o meu treinador e os meus colegas. Foram dadas oportunidades e eu na minha opinião agarrei-as. Eu e o Beto nesse ano batemos o recorde da dupla mais nova de centrais de sempre que pertencia ao Venâncio e ao Morato há imensos anos e nós nesse ano no jogo em que me estreei oficialmente frente ao Farense batemos esse recorde. As oportunidades foram-me dadas e correspondi, agora se não houve continuidade na minha aposta... o Beto apareceu primeiro que eu nos seniores, independente do valor dele, era muito difícil para um clube como o Sporting CP que estava, há tantos anos, sem ganhar nada, apostar ali em dois centrais tão jovens, um com 20 e outro com 19 anos. Normalmente, tem de ser um jovem e um jogador com mais experiência e depois tínhamos um senhor que se chama Marco Aurélio. O Beto chegou primeiro que eu, a aposta foi ele e eu jogava quando era chamado.

Ficou mágoa por não haver continuidade?

Não sinto mágoa. Sinto que poderia ter jogado mais, chegar mais longe no sentido de jogar mais vezes no onze titular do Sporting CP.

__________________________

"Não queria sair porque ambicionava afirmar-me e ser campeão.

Praticamente fui obrigado pelo Carlos Janelas a ir para Southampton..."

__________________________


Rumou à Premier League.

O convite do Southampton surge num Portugal x Grécia em sub-21, em que um olheiro do clube inglês, Terry Cooper, mostrou interesse em mim. Os clubes falaram. Não queria sair porque ambicionava afirmar-me e ser campeão. Praticamente fui obrigado a ir para Southampton pelo Carlos Janelas que fazia parte da direção do clube. Há males que vêm por bem, foi uma experiência ótima e hoje em dia estou-lhe agradecido.

__________________________

"Com 22 anos jogar na Premier League...

foi uma coisa que me marcou para a vida."

__________________________


Que significado teve jogar em Inglaterra?

Com 22 anos jogar na Premier League, uma das melhores ligas do mundo, talvez a melhor a par da espanhola, foi uma coisa que me marcou para a vida. Estava habituado a ver os jogos pela televisão e de repente estava ali a competir com eles. O que mais me surpreendeu foi o ambiente que se vive à volta do futebol, é qualquer coisa incrível.

__________________________

"Respondi-lhe para o Benfica, nunca.

Jamais faria essa traição ao Sporting CP...

que me formou como Homem e enquanto profissional de futebol."

__________________________


Mas, em Dezembro regressa... a Alvalade.

Acabava o contrato com o Sporting CP nesse ano e pela Lei Bosman, no final da temporada, passava a jogador livre e podia exercer a minha profissão em qualquer país da União Europeia como comunitário, o que me abria bastante o leque de opções para garantir um bom contrato. Passados dois meses de estar em Inglaterra, o Southampton faz-me uma proposta de cinco anos de contrato, em que o meu empresário Amadeu Paixão vem falar comigo e eu disse-lhe para esperar pelo Sporting CP. Em Dezembro, o meu empresário ligou-me e disse-me: "Vamos para o Benfica. Com uma proposta superior à do Sporting CP". Mas, eu respondi-lhe que para o Benfica nunca. Ele chamou-me maluco por desperdiçar a oportunidade depois da maneira como fui tratado pelo Carlos Janelas mas eu jamais faria essa traição ao Sporting CP. As pessoas passam e o clube fica. Foi o Sporting CP que me formou como Homem e enquanto profissional de futebol. Passados dois dias, o Luís Duque [da direção do Sporting CP] ligou-me: "Tivemos a informação que vai para o Benfica. Tem um avião às 8h20 em Heathrow para Lisboa, meta-se no avião e venha embora, voçê vem com o aval do Inácio [treinador], nós queremo-lo de volta, vem com um contrato de dois anos. Não disse mais nada a ninguém, fiz as malas, telefonei para o Amador e fui-me embora.


A chegada do central André Cruz voltou a tirar-lhe a oportunidade de se afirmar.

Quando cheguei de Inglaterra a aposta de Inácio para dupla de centrais foi o Beto e o recém-chegado André Cruz, que dispensa qualquer apresentação... e fui colocado de lado.

__________________________

"Foi dos momentos mais felizes que tive na vida...

o clube do meu coração tinha-se sagrado campeão nacional..."

__________________________


Mas nessa temporada teve uma grande alegria. A 14 de maio sagra-se campeão nacional, na última jornada, no Engenheiro Vidal Pinheiro.

Foi dos momentos mais felizes que tive na vida. Não consigo descrever a alegria que senti. Por vários motivos, acima de tudo porque o clube do meu coração tinha-se sagrado campeão nacional, depois fazia parte desse núcleo de jogadores que tivemos a sorte, a felicidade e o mérito de conseguir conquistar o título, e tinha concretizado o sonho de criança, a partir do momento em que entrei naquela porta 10 A, ser campeão nacional pelo Sporting CP.


Com pouco espaço para jogar quis sair.

O Inácio na pré-época explicou-me o que pretendia de mim. Disse que contava comigo e queria inscrever-me na Liga dos Campeões. Mas, eu sabia que não iria ter muitas oportunidades para jogar, numa situação normal. Era um jogador jovem que queria jogar com regularidade para me poder afirmar no futebol português e decidi aceitar o convite do Alverca que, à época, era um clube estável no principal escalão.


A que se deveu a ida para Espanha?

Faço três anos lá em Alverca, entretanto o Vitória de Guimarães mostra-se interessado num momento em que iria haver eleições no clube. Eu fazia parte duma lista de jogadores de um dos candidatos que acabou por não ganhar a presidência e então gorada essa hipótese surgiu a possibilidade de ir para o Murcia da segunda divisão espanhola.


Esteve a um passo de La Liga?

Sim. Em dezembro estive para saltar para a primeira divisão de Espanha mas, uma lesão, que não era grave, fez com que fosse operado quatro vezes e nunca mais joguei.


Entretanto, regressa de novo ao futebol português.

Arrependo-me muito de o ter feito. Estava com 28 anos, não tinha jogado muito e foi muito difícil arranjar clube em Portugal.


O futebol português foi ingrato para si?

Não, foi quem me deu a oportunidade de ir para outros países. Mas, nessa fase sim. Hoje em dia, tenho a perfeita noção de que havia interesse em que eu não conseguisse voltar ao futebol português da maneira que pretendia.


Interesse de quem?

Prefiro não responder.

__________________________

"Abanou-me nove meses sem receber.

A força anímica foi abaixo. Houve dias que não consegui treinar".

__________________________


Equacionou deixar o futebol?

Não, deu-me mais força. Queria mostrar que havia muita gente errada. Venho para um clube da II Liga que era o Felgueiras, tinha um plantel muito bom, mas uma semana antes do campeonato começar rebenta uma "bomba" em Felgueiras, ainda, derivado do "saco azul", o clube fica impedido de inscrever jogadores. Os outros plantéis já estavam preenchidos, eu e os colegas ficámos de mãos atadas. Aparece o Maia, igualmente da II Liga, que era do conhecimento público que passava dificuldades financeiras, como queria jogar para voltar ao topo do futebol português, mesmo correndo riscos de não receber os salários, decidi aceitar. Mas, não recebi um único mês. Abanou-me nove meses sem receber. A força anímica foi abaixo. Houve dias que não consegui treinar.


Viu jogadores a passar fome no futebol?

No Maia, sim. E com família. Principalmente, jogadores brasileiros.


O que mais o revoltou no Maia?

Não haver dinheiro para pagar os salários aos jogadores e o clube em Dezembro foi comprar jogadores novos após colegas rescindirem com justa causa. Mas, atenção que isto não se passava só no Maia, costumava falar com colegas que jogavam noutros clubes, alguns deles históricos de prineira liga, e eles também passavam por uma situação difícil devido a estarem com vários meses de salários atrasados.


Que rumo deu à sua carreira?

Com muita força de vontade e apoio da minha família não quis desistir. Joguei mais uma temporada na II Liga ao serviço do Portimonense e de seguida surgiu uma proposta vinda de Chipre e fui para lá.


Como correu essa aventura?

Cheguei a um novo país com 30 anos. Fui representar o Nea Salamis da Liga cipriota e correu bem em termos desportivos e financeiros. No entanto, quis regressar a Portugal no final da temporada e aceitei a proposta do Lusitânia de Lourosa (antiga segunda divisão b correspondia ao terceiro escalão).


Mas, quis regressar ao Chipre e foi lá que pendurou as chuteiras.

Regressei porque as coisas tinham corrido bem, a todos os níveis, na minha primeira experiência e resolvi voltar. Sem ter alguma vez equacionado terminar lá a minha carreira.

__________________________

"... vim embora do Chipre com seis meses de salários em atraso e não recebi esse dinheiro até hoje. Como não recebi o dinheiro do Maia... e do Alverca derivado de outras situações. Foi-se perdendo muito dinheiro pelo caminho..."

__________________________


Porque o fez?

Fui para o Akritas Chiorakas da segunda divisão cipriota e na primeira temporada as coisas complicaram a nível financeiro. O Chipre que tal como toda a Europa abanou muito com a transição da sua moeda para o euro. Em quatro meses recebíamos um. No último ano, foi o descalabro, vim embora do Chipre com seis meses de salários em atraso e não recebi esse dinheiro até hoje. Como não recebi o dinheiro do Maia... e do Alverca derivado de outras situações. Foi-se perdendo muito dinheiro pelo caminho... Com 34 anos, devido aos problemas de não receber, fiquei cansado de futebol.


__________________________

"... fui à varanda fumar um cigarro e já não sentia motivação para aquilo que mais gostava de fazer que era jogar futebol."

__________________________