JOVEM ‘RIBAMEIRA’ FICOU À PORTA DO PROJETO OLÍMPICO TÓQUIO 2020

Natural da vizinha aldeia da Maceira, foi em Porto Dinheiro (Ribamar) que Tatiana Francisco encontrou o seu “porto de abrigo”. Não sendo uma ribameira de nascimento confessa que já se sente como tal, depois de ter casado com um ribameiro e ter ido viver para aquela idílica praia.

Desde tenra idade que Tatiana contrariou a “regra” que os desportos de combate são para os “bad boys” e para os homens de “barba rija” e tornou-se num caso sério de sucesso no taekwondo nacional, vindo mesmo a transformar-se num dos expoentes máximos da modalidade no nosso país como comprova o seu quarto lugar, em juniores femininos, no Europeu de Vila Nova de Gaia em 2013, que a deixou à porta do projeto olímpico Tóquio 2020. No entanto, tudo mudou. Tatiana trocou os tatamis (recintos destinados à prática do taekwondo) pelo projeto pessoal que tem levado à prática desde setembro de 2019 e que a faz sentir realizada por contribuir diretamente para a melhoria da saúde dos que a procuram.

Desde que começou a competir em toda a sua carreira sagrou-se sempre campeã nacional nas categorias em que participou, à exceção de uma presença em que arrecadou o segundo posto. Houve um ano em que participou em dois escalões e cometeu a proeza de se sagrar campeã nacional em ambos.

“No taekwondo há uma regra: o cinto nunca deve ser lavado”, atira Tatiana Francisco quando conversámos com ela no seu espaço de treino. Começou muito cedo, aos cinco anos, porque tinha um tio que fazia taekwondo e brincava com os sobrinhos “às lutas”. Como era uma criança hiperativa a mãe foi aconselhada a levá-la a praticar um desporto ativo, de preferência de combate. Uma arte marcial era o ideal e acabou por ir para o Hóquei Clube da Lourinhã. “A minha mãe estava receosa porque há aquela ideia que as pessoas com as artes marciais ficam violentas, mas é completamente o oposto, porque exige disciplina e respeito a uma hierarquia”, recorda.

Assim começou um percurso que teve altos e baixos e algumas mazelas no corpo, “parti o pé duas vez, fiz uma rotura nos gémeos e outra no adutor”, lembra. Em Alicante, pela seleção portuguesa, sofreu o único KO da carreira, um pontapé na traqueia que a fez perder os sentidos. São os tais “ossos do ofício”. Também já precisou de usar os conhecimentos de defesa pessoal fora dos tatamis. É uma arte de defesa pessoal, por isso a regra é nunca começar nada. “Os poucos que se armam em campeões é porque não perceberam a essência de uma arte marcial”, explica.

Aos dez anos fez o seu primeiro campeonato nacional, numa altura em que passou do HC Lourinhã para o Dojang João Correia, em Peniche. Um engano fez com que ela competisse com adversários do escalão de 11 anos e foi chamada à seleção nacional de cadetes sendo ainda infantil. Acabou por não ir ao campeonato do mundo quando se percebeu que afinal era mais nova. Com 11 anos foi novamente aos campeonatos nacionais e convocada para a seleção.

O talento para este desporto fez com que chegasse cedo ao cinto negro, com 12 anos, mas o “poom”, metade preto e metade vermelho, porque só aos 15 anos se pode receber o cinto negro, o que veio a acontecer. Chegou ao terceiro “dan” e ao grau de instrutora, mas desistiu aos 18 anos quando estava prestes a receber o quarto “dan”, que lhe conferia o grau de mestre.

Um dos diplomas que guarda com mais carinho é precisamente o do primeiro “poom”, porque o exame foi muito exigente: fez 100 flexões, partiu três telhas a soco (teve de ser com o cotovelo porque era ainda muito pequena) e partiu uma tábua de madeira a pontapé. Outro teste foi ter de apagar uma vela com um soco. Como é que se consegue apagar uma vela com soco, perguntámos. Tatiana Francisco respondeu com naturalidade: “não há forma de explicar, é rotação e velocidade, demorei muito tempo para conseguir”.

“Foi uma superação porque eu era ainda uma criança. Foi importante porque era um grande objetivo meu ser cinto negro, é o auge da modalidade”, destacou a atleta, que lembrou ainda outra conquista: “ganhei uma taça internacional por ter sido a melhor atleta em todas as categorias, numa competição em Peniche”.

Em Vila Nova de Gaia, em 2013, ficou em quarto lugar no Europeu, aos 17 anos. Foi a última grande competição em que participou e que lhe abriu as portas do projeto olímpico Tóquio 2020. Mas só um ano depois de deixar a modalidade é que o seu mestre lhe ligou a convidá-la para voltar aos treinos, porque tinha sido designada jovem esperança olímpica. “Apesar do sonho uma vez ter existido, as desilusões foram a causa do abandono”, afirma.

Foi um percurso longo, durante o qual Tatiana Francisco fez muitos sacrifícios como atleta de alta competição e que sentiu não ser totalmente valorizada. “A minha opção possibilitou-me, hoje em dia, ter o meu próprio espaço, uma casa e uma família. Se tivesse continuado nada disto teria acontecido”, enaltece Tatiana, feliz com a sua escolha. No Europeu a relação não foi pacífica com o selecionador nacional e acabou por também romper com o seu mestre. Saiu, foi estudar para a Escola Superior de Desporto, fez uma pós-

-graduação de PT (personal trainer) e pelo meio trabalhou no McDonalds. O taekwondo ficou para trás.

Abriu um pequeno espaço de treino onde dá aulas a grupos de quatro pessoas, das 18h30 às 21h30. Antes da pandemia tinha 47 alunos, hoje tem 18, mas espera voltar ao número de alunos que tinha. “Gosto de trabalhar a postura e a mobilidade, dá-me gozo alguém não conseguir mexer um braço ou ter dificuldade em sentar-se e com exercícios passa a conseguir fazê-lo sem dores”, explica Tatiana, sublinhando que o seu trabalho visa essencialmente a saúde e não o aspeto físico. As suas aulas são compostas com exercícios personalizados e adequados à idade e à condição de cada um. A aluna mais nova tem 18 anos e a mais velha tem 74.

A entrada na faculdade permitiu-lhe descobrir “o lado bom e menos exigente do desporto. Adorei o estágio, a trabalhar com 40 idosos, todos diabéticos e muitos dependentes de insulina e a nossa tarefa era durante aquele ano melhorarmos a vida deles através da atividade física. Ao final de um ano conseguimos reduzir os insulinodependentes. Aquilo deu-me uma satisfação muito grande. Eu tive uma aluna idosa que passou a conseguir brincar com os netos no chão, coisa que não conseguia fazer, e agradeceu-me”.

Começou por trabalhar num pequeno ginásio nas Caldas da Rainha e depois esteve noutro, diferente, mais virado para as máquinas e a musculação. Percebeu o seu caminho, “essa experiência levou-me a pensar que dá para levar as pessoas a gostarem do exercício físico, pela qualidade de vida “. Gostava de ter um espaço maior, mas compensa esse desejo com a organização de atividades físicas ao ar livre.

As redes sociais são o local onde pode ser contactada, no

Facebook:Tatiana Francisco

Instagram: tatianaf_treinadora.pessoal

Também dá aulas individuais com marcação de hora.

E as saudades do taekwondo são muitas? Responde que sim, tem falta da adrenalina das competições, mas compensa a dar socos no saco sozinha, porque, “a parte do combate vai-se perdendo se não treinar, mas os princípios ficam para sempre”. Assegura que “ o taekwondo fez, faz e fará parte da minha vida”, uma arte marcial que define numa palavra: “gratificante”.

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