Jovem Jogador | 1.º Contrato Profissional Um Paradigma Burocrático

“A burocracia pode ser preguiçosa, descortês, incapaz e até corrupta...em qualquer reino sempre há algo de podre.

Rematada insânia tornar impublicáveis lacunas, faltas ou crimes, pois contamina de responsabilidade o governante

que a ordena ou tolera.” Ulysses Guimarães



No passado dia 19 de Agosto, o comentador do Canal 11, José Taira, no programa Futebol Total, trouxe um tema superinteressante na dificuldade que os clubes portugueses possuem relativamente a realizarem contratos profissionais de futebol com os seus atletas menores de 23 anos, devido a todos os custos associados à realização dos mesmos. Isto levou-me a aprofundar um pouco mais o tema e a tentar perceber o que poderá ser feito para acrescentar a esta temática que prejudica tantas vezes o jovem jogador português e a sua afirmação nos patamares competitivos corretos para o seu nível e potencial.

Sendo assim, começamos pela explicação legal dos valores envolvidos num primeiro contrato profissional assinado por um jovem jogador. O mecanismos de Compensação Financeira prevê que todos os clubes entre o 12.º aniversário do jogador e o 23.º aniversário recebam uma percentagem por cada época em que o jogador realizou a sua formação no clube, sendo que a percentagem varia (5% dos 12 anos aos 15 anos por cada época, e 10% dos 16 anos aos 23 anos por cada época, perfazendo um total de 100%), já o montante a ser pago varia e está associado à categoria (divisão) onde o clube se encontra a jogar na assinatura do 1.º contrato ( I Liga – 90 mil euros | II Liga – 40 mil euros | III Liga e CPP – 30 mil euros | Restantes – 10 mil euros).

O princípio está correto e valoriza quem mais contribui para o elevar destes jovens jogadores aos patamares profissionais, os clubes formadores, mas a realidade é completamente diferente pois os clubes na sua maioria (à exceção dos 5/6 clubes grandes a nível nacional), não possuem capacidades financeiras para realizarem estes

contratos e os seus pagamentos, logo o jovem jogador vê-se privado de um pagamento justo e legal pelo seu trabalho e toda a estabilidade necessária nesta fase inicial da carreira profissional deixa de acontecer, assim como as oportunidades que se fecham não por falta de qualidade futebolística mas por custos burocráticos associados a realização de um 1.º contrato de trabalho. A realidade é que por vezes não percebemos como determinados jogadores não chegam à II Liga ou mesmo à I Liga mais cedo, e muitas vezes está diretamente relacionado com os custos elevadíssimos associados e os clubes destas ligas profissionais não possuem verbas suficientes para apostar mais no jovem jogador.

Tal e qual como referi anteriormente este princípio de pagamento de compensação financeira nunca poderá ser desvirtuado nem com valores mais baixos (ao contrário do que o comentador em questão defendeu no programa), pois os clubes formadores e a base da pirâmide têm de continuar a ser alimentados, pois possuem um

papel fulcral no sucesso que continuamos a ter no topo da pirâmide, mas o Governo, a F.P.F. e as Associações Distritais tem de uma vez por todas de resolver esta questão, minimizando os custos dos clubes que querem dar condições contratuais aos jovens jogadores e continuando a alimentar financeiramente quem contribui diretamente para a formação do jovem jogador português.

Para finalizar sugiro: a redução drástica dos valores a pagar pelos clubes que querem dar condições ao jovem jogador no seu 1.º contrato de trabalho, e F.P.F. e Associações Distritais a pagarem as restantes partes dos direitos de compensação através de notas de crédito aos clubes que formaram o novo jogador profissional, onde esses clubes conseguem utilizar essas notas de crédito para a inscrição das suas equipas, jogadores, organizações de jogos, etc. E assim possuirmos um sistema de bonificação direta para quem forma mais e com mais qualidade.


Texto: José Melícias

Treinador Uefa B - Coordenador Futebol Formação

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