GRANDE ENTREVISTA COM PEDRO MIGUEL CALDAS


JOGADOR, TREINADOR E JORNALISTA... UMA PAIXÃO: O HÓQUEI EM PATINS

Jogou dez anos no Sporting de Torres, cinco na Física, meio ano no HC Lourinhã e umas semanas no GC Odivelas, até ter sido convidado para treinar uma equipa de sub13 na Física, em 2010, por Vítor Fortunato. Como jogador guarda acima de tudo o convívio com os colegas com quem ainda hoje tem uma forte amizade e que lamenta o facto de grande parte deles se terem desligado do hóquei.  Enquanto treinador fez seis épocas intercaladas na Física (2010-2013, metade de 2015, 2017-2018, 2019-2020), duas no HC Lourinhã (2015-2017) e uma no FC Alverca (2018-2019).  Confessa que aprendeu imenso nos três clubes por onde passou e que as duas saídas da Física para outros clubes só o beneficiaram na sua evolução enquanto treinador.  Fora de rinque gosta muito de convívio e viajar. Costuma ler, não porque goste de ler mas porque o conteúdo dos livros lhe interessa. Ou seja, se puder aprender o que está nos livros através de áudio ou visualização prefere, mas como nem sempre é possível, foi criando o hábito da leitura. Apesar da juventude, Pedro Miguel Caldas  estrou-se e com sucesso enquanto  presidente no Grupo Desportivo Ponterrolense tendo feito a coletividade voltar ao topo do futebol distrital na temporada de 2016/17...


Donde vem a tua paixão pelo hóquei em patins?

- Quando jogava hóquei era viciado em ver futebol, aí até aos meus 15 anos. À medida que fui crescendo fui gostando cada vez mais de hóquei em patins e curiosamente cada vez menos de futebol. Hoje em dia tenho dificuldade em ver um jogo completo. A minha paixão pelo hóquei acho que se deve à dinâmica e ao equilíbrio do jogo, sempre tão rápido, com muitos remates, mas com uma taxa de sucesso menor em relação ao basquetebol ou andebol, por exemplo. Começo a achar que a magia de ser o único desporto que conheço onde se pode jogar atrás da baliza também me atrai imenso. Outra grande diferença de outros desportos é o facto de ser jogado em patins. Acho que muita gente pensa que não tem grande relevância, mas na verdade o posicionamento e a direção dos patins neste desporto é muito importante. Penso que são muitos pontos diferentes de outras modalidades e isso fascina-me.


Como é que consegues exprimir melhor a tua paixão pelo hóquei em patins: como treinador ou enquanto jornalista?

- Boa pergunta. Mas acho que claramente como jornalista. Dá para fazeres o que queres e analisares um jogo de vários pontos de vista. Como treinador temos de estar presos a certos critérios que são inerentes ao sucesso dos atletas. A preparação física por exemplo. É algo que não me agrada mas se não me preocupar com isso sei que não teremos evolução. Além disso o treino ou um jogo exige uma concentração extremamente desgastante, apesar de me ir habituando, sei que tenho responsabilidades no que vai acontecer em pista. Como jornalista é relatar o que aconteceu, como treinador é fazer acontecer. A segunda parece-me mais complicada, mais exigente e por isso, na minha opinião, menos apaixonada e mais responsável.


És torriense de nascimento e desde sempre muito ligado ao hóquei em patins local. Como está na tua opinião atualmente a modalidade em Torres Vedras?

- Acho que se tivermos os dois clubes da terra com vigor ao nível de número de equipas e atletas já é um bom começo. A partir daí é trabalhar. Em Torres Vedras acho que os treinadores não são unidos no método de trabalho e reconheço nisso uma vantagem. Não há uniformização e significa que existem maneiras muito diferentes de trabalhar e ver o hóquei. Fico feliz que assim seja. Para mim, a uniformização é inimiga da criatividade e da evolução. Penso que a Física está a realizar um trabalho de formação de topo ao nível nacional, com um misto de treinadores experientes e de jovens atletas que se vão integrando e ganhando hábitos enquanto futuros treinadores. A ligação entre gerações é fundamental na continuidade do sucesso. Tenho uma ideia menos precisa do Sporting de Torres porque nunca lá treinei mas pelo que vou vendo das informações do clube para a próxima época devo dizer que fiquei muito satisfeito pelo ingresso do Dinis Valentim enquanto coordenador da formação e do Nelson Silva enquanto coordenador da competição. O Dinis acredito que irá dar um impulso ao Sporting de Torres na inserção de novos atletas na iniciação, que penso ser uma pecha atualmente. A iniciação tem de merecer de qualquer clube de hóquei a maior atenção, porque o hóquei não funciona como o futebol onde podes começar aos oito ou nove anos. No hóquei os miúdos devem começar entre os dois e os seis anos, ora isto exige um trabalho de bastidores muito grande das coordenações para com os pais, pois com três ou quatro anos dificilmente será o miúdo a decidir vir aprender a patinar. No Sporting de Torres penso que esta aposta neste ponto estava em falta. Pelo que vi esta ligação de gerações de que falava também está a ser feita com a inclusão de atletas de formação como treinadores adjuntos, o que é muito positivo.


Com a Física sempre candidata a chegar à primeira divisão e com um Sp. Torres renascido... acreditas que um dia teremos um dérbi torriense no principal escalão nacional?

- Acho difícil, por duas razões. Uma por razões financeiras que faz com que, mesmo que tenhamos grandes atletas formados em Torres Vedras, muitos deles procuram singrar noutras paragens. A segunda por serem clubes direcionados para uma vertente mais formativa e menos procuradora de resultados, além de serem entidades multi-desportivas, isto é, o hóquei divide o foco com outras modalidades, fazendo com que a ambição seja repartida e não direcionada a uma só modalidade. Basta olharmos para os clubes que estiveram este ano na primeira divisão. Tirando os quatro grandes e a Física temos Turquel, Valongo, Juventude de Viana, Óquei de Barcelos, Riba D’Ave, HC Braga, Sanjoanense, Tigres e Paço de Arcos. Todos eles podem ter mais modalidades, mas o grande foco é sem dúvida, e por uma larga margem, o hóquei. Penso que isso permite maior tempo e visão a quem coordena os projetos (presidentes ou diretores), o que ajuda na preparação dos plantéis e na escolha de quem os lidera. Ainda assim acredito que temos massa humana em termos de treinadores e atletas para contarmos com uma equipa na primeira divisão e outra na segunda, de forma permanente.



Qual o comentário que te merece o recente acordo entre os dois clubes torrienses no que toca à passagem de atletas dum clube para o outro?

- Sinceramente só ouvi a conferência de imprensa. Ainda não recebi qualquer informação oficial nesse sentido. Mas aquilo que ouvi não me faz sentido, principalmente na perspetiva de um pai. Se sou pai e não assinei nenhum contrato profissional, não estou a ver qualquer cabimento desta medida. Acho que a lógica atual do desporto deve ser: um pai/mãe desloca-se a um pavilhão para que o filho/a aprenda a praticar a modalidade. Paga ao clube e consequentemente ao treinador para tal. Quando se iniciar em jogos oficiais, dá a palavra ao clube/treinador de que podem contar com o seu filho/a para aquela época. Ora, perante este ciclo, se eu como pai achar que, por exemplo, o clube onde o meu filho está inserido não oferece as condições logísticas ou humanas que eu pretendo para ele e querer mudar para outro clube que as oferece e que está a 500 metros de distância, com que direito é que um qualquer presidente ou diretor me impede de o fazer? E as palavras do Presidente do Sporting de Torres nessa conferência de imprensa, infelizmente, foram bem claras, “quando um atleta que estiver num clube quiser mudar para outro, já sabe que só poderá fazê-lo com a autorização das direções, se quiser continuar a jogar hóquei em Torres Vedras”. Quando ouvi isto fiquei pasmado e preocupado, não enquanto treinador, mas colocando-me na posição de pai/mãe. O Sporting de Portugal que joga a 15km de Torres Vedras agradece este acordo, claramente. Penso que os responsáveis máximos pela modalidade na cidade deveriam dar prioridade à melhoria, se possível, das condições humanas e logísticas para que os atletas fiquem do que propriamente decidir o seu futuro. Se me falarem de impedir os treinadores de efetuarem convites ou de não deixarmos jogadores saírem a meio da época sem o aval do clube, aí já estou totalmente de acordo. E na parte que me toca, como treinador, estou à vontade com este acordo. Em seis anos de Física, só convidei um atleta do Sporting de Torres que nem chegou a vir.


Que jogador é para ti uma referência neste desporto?

- Beto Borregán. Jogava no Barça nos anos 90 e início de milénio. Jogou sempre no Barça. Tinha tudo. Leitura de jogo, capacidade de arranque, patinagem, técnica, espírito de sacrifício, concentração. Foi o jogador mais perfeito que já vi até hoje.


E qual o treinador com quem mais te identificas?

- Bebo de muitos treinadores, mesmo muitos. Mas os dois que bebi mais foram Ferrán Pujalte, principalmente quando estava no Vic e Mirko Bertolucci quando estava no Viareggio. Também tirei ideias essenciais para os movimentos que tento criar hoje em dia do Cabestany (FC Porto) e do Alejandro Domínguez (Benfica). Depois tenho outra pessoa que, apesar de nunca ter conhecido, já ouvi tantos depoimentos e enquanto jornalista fiz tantas entrevistas e textos sobre ele que levo sempre comigo nestas andanças, acima de tudo pelo conhecimento e paixão que transmitia pela modalidade, que é o António Livramento. A título de exemplo, há um vídeo dele após o Portugal-Espanha do Mundial 1993 que vejo com muita frequência, onde se emociona com a passagem da seleção à final e que penso ser revelador do amor que ele tinha pelo hóquei. Não conheço nada mais lindo e mais genuíno no desporto que uma pessoa chorar de emoção após uma vitória que, neste caso, nem significava o título. Era ‘apenas’ a passagem à final.


O velho chavão diz que o hóquei em patins só tens expressão em Portugal, numa região espanhola, numa cidade italiana e num bairro da Argentina... achas possível que a modalidade cresça a nível de competitividade, ou seja, que se desenvolva significativamente em mais países?

- Acho difícil. O crescimento de uma modalidade só tem a ver com a paixão de quem está inserido nela e com o poder financeiro da mesma. Acho que o hóquei não tem nem uma nem outra. Do ponto de vista económico é negativo. Enquanto treinador de hóquei é negativo, podia estar a ganhar 2000 euros na China e não estou. Mas enquanto apaixonado pelo hóquei, não acho tão negativo assim. Para mim o hóquei são dez jogadores e uma bola dentro dum rinque. Enquanto treinador convinha-me ter 100 miúdos a jogar, talvez ganhasse mais dinheiro ao fim do mês, mas se destes atletas nenhum gostasse de lá estar, qual seria o meu prazer em vê-los? Enquanto amante da modalidade, preferia ter dez apenas, mas que esses dez tivessem o mesmo gosto em jogar que eu tenho em vê-los. Quero dizer com isto que, se o hóquei tiver algum problema genuíno (não falo de dinheiro) não é resolvido com o facto de ter mais ou menos países a jogá-lo. Ou há paixão ou não há. Mais do que procurar novos mundos, penso que neste momento é mais importante para o hóquei que não se perca a sua chama nos velhos.


Na minha opinião és o melhor jornalista a escrever sobre hóquei em patins em Portugal. Como está o teu blogue?

- O meu blogue tem andado mais ativo desde o aparecimento do Covid-19 porque tenho tido mais tempo para mexer nele. É a vantagem do blogue, escreves o que queres, quando queres. Já o tenho desde os meus 16 anos (tenho 30) se não me engano e já faz parte da minha vida, se bem que cada vez menos. Mas arrisco-me a dizer que foi e é das melhores coisas que me aconteceram na vida. Melhorei as línguas, contactei com muitas pessoas de imensos lugares e aprendi imenso de hóquei com o blogue.


Que palavra deixas aos amantes da modalidade?

- Que não desesperem. Estaremos de volta em breve.

Abração!!!



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