GRANDE ENTREVISTA COM O ATUAL SELECCIONADOR DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

RICARDO MONSANTO: "A MINHA MAIOR AMBIÇÃO É SER SELECCIONADOR PORTUGUÊS"


Ricardo Monsanto nasceu para o Futebol em Alcântara no Atlético Clube de Portugal, cresceu como Treinador no Estoril Praia, mas foi no Torreense que atingiu a sua maturidade enquanto Técnico de Futebol, depois disso muitas aventuras no agora chamado Campeonato de Portugal e também no Estrangeiro, do calor ao frio, andou pelas Arábias, Irlanda do Norte, República da Irlanda, São Tomé e Príncipe foram alguns dos destinos mais exóticos. Nas Selecções lançou Gedson Fernandes, Luís Maximiano, Jota, Miguel Luís, Diogo Pinto entre outros como aqui no Oeste apadrinhou Lyonn, Manél Liz, entre outros craques. Alguns êxitos desportivos e não só com duas subidas de Divisão nas Camadas Jovens do Estoril, duas subidas no Torreense com a equipa B e Juniores à 1a Divisão Nacional, SuperTaça de Lisboa com o Alverca, uma infinidade de Troféus com as Selecções de Lisboa onde se destacam os famosos Lopes da Silva ou o Torneio Cidade de Mértola. Em 2015 salvou o Fátima da extinção do futebol sénior em 2018 refundou como Treinador o futebol sénior do Estrela da Amadora. Fora do futebol tem uma vida dedicada aos outros, foi um dos fundadores dos Jovens da Ramada, fundador e sócio número 1 da Associação de País da João de Deus de Odivelas, Presidente da Mesa da Assembleia do GD Bons Dias (referência nacional de Corfebol), Confrade da Marmelada de Odivelas, Sócio fundador e elemento da Direcção da Associação de dadores de sangue de Odivelas, Membro do Conselho Municipal de Desporto de Odivelas, Vice-Presidente da Rádio Cruzeiro, Vogal do Desporto na União de Freguesias da Ramada e Caneças, foi também o Mandatário de Marcelo Rebelo de Sousa para o Concelho de Odivelas nas últimas presidenciais. Para o actual Treinador Sénior e Coordenador do Futebol Jovem do CAC da Pontinha os dias parecem ter mais de 24 horas e diz que ainda assim tira 6 horas para dormir, quase como se fosse pecado.


O trabalho que desenvolveste e bem no Torreense foi a tua rampa de lançamento no futebol sénior. Gostarias de voltar a treinar no Manuel Marques?

RM: Foi sem dúvida o momento de viragem da minha carreira, o descolar do Futebol Jovem para o Futebol Sénior, foi com o Título da Equipa B de séniores e a subida à 1a Divisão Nacional de Juniores que se me abriu as portas para treinar a Equipa Principal do Torreense, a minha primeira experiência enquanto Treinador da Equipa Principal foi fantástica, estávamos em cheio no Campeonato, éramos conhecidos como os Oeste Babys e vencemos na altura o Super Odivelas do Paulo Fonseca no Manuel Marques ou o poderoso Real Massamá entre tantos outros, porque no Manuel Marques mandavamos nós, na Taça de Portugal fomos até ao jogo com a Académica, na altura na 1ª Liga com Domingos Paciência em ascensão no seu comando. 

Mais tarde, o meu regresso faz-se pela porta grande, quase como se fosse o salvador da Pátria, mas tinham saído jogadores fundamentais, Leonardo, Miguel Paixão, Miguel Pinheiro entre outros, a equipa estava desfeita e não consegui voltar a ser feliz. Regressar ao Manuel Marques ou mesmo ao Oeste nunca estará fora de questão, gosto muito da zona, das pessoas, ainda hoje faço alguns fins de semana e pequenos períodos de férias em Santa Cruz onde me sinto sempre muito acarinhado. 

Do teu trajecto na última década, o que te marcou mais e que te deixa especial saudade?

A participação com as Selecções no Lopes da Silva, a aventura na Arábia Saudita, o Fátima e a sua Cidade, as pessoas de Maguerafelt e o Sofia Farmer na Irlanda do Norte, os derbys Athlone x Longford na República da Irlanda, o Estrela x Belenenses com 6500 pessoas no Estádio, a viagem ao Sudão e a festa do jogo com o Gana no nosso Estádio Nacional em São Tomé e Príncipe, até momentos mais institucionais como a organização e Lançamento do Torneio Res Non Verba em Samora Correia. Ficou um amargo de boca com o Coronavírus que em pleno ano de Odivelas Cidade Europeia do Desporto nos adiou o XXXIX naquele que pensámos ser o melhor Torneio Internacional de Futebol Infantil de sempre que para além da participação de Benfica, Sporting, Porto, Braga, Setúbal, ia contar com a participação dos históricos PSV Eindhoven, Anderlecht, Real Betis de Sevilha e até o mais exótico Nordsjaelland da Dinamarca. 


Como surgiu o convite para seres o Seleccionador Nacional de São Tomé e Príncipe?

Surgiu em 2017, para fazer as pré-eliminatórias da CAN contra Madagáscar, mas estava em mudanças grandes na minha vida com o salto do Sofia Farmer na Irlanda do Norte para a First Division da República da Irlanda e acabou por não se concretizar. Concretizou-se dois anos mais tarde já em 2019, numa altura em que estamos a fazer história com a Selecção depois de pela 1a vez se ter ultrapassado as pré eliminatórias e conseguido participar numa fase de qualificação para a CAN. 

Que balanço fazes da experiência até ao momento?

Simplesmente fantástica, tudo o que é conseguido é sempre a primeira vez, e quando recebes na tua casa jogadores de classe mundial como o Thomas Partey, Boateng, Ayew etc... tudo o que existe de melhor na Liga Espanhola, Alemã, Inglesa, Italiana, está ali na tua frente, a jogar contra nós e fazemos um grande jogo, está tudo dito. Ok, perdemos 0-1, golo de penalty, mas a festa foi tão grande que dei tudo o que tinha vestido às crianças que assistiam ao jogo, desde as botas até às meias. Recebi também uma prenda muito especial, a camisola do Thomas Partey, um dos melhores Médios Centro do Mundo. 


"ABDIQUEI DE IR PARA A CHINA GANHAR DINHEIRO À SÉRIA PARA FICAR NA AMADORA"

Já treinaste em vários países. É melhor treinar lá fora ou cá no nosso país?

É diferente, em Portugal tens mais conforto, estás perto de tudo e de todos, ganhas qualidade de vida e hoje tenho uma noção das distâncias tão diferente que para mim treinar em Odivelas é muito bonito, mas a partir do momento que me afasto do Distrito de Lisboa, para mim é praticamente igual treinar em Setúbal, Santarém, Leiria, Castelo Branco, Algarve ou Bragança, vai dar exactamente ao mesmo.

Até porque como costumo dizer, tenho um carro desportivo e bastante rápido, o Mundo é um T1 e Portugal é uma varanda, na nossa varanda meto-me em pouco tempo em qualquer Cidade do país, e para dormir desde que tenha uma cama, um armário, mesa de cabeceira está óptimo.

Quando quero conforto a sério fico em casa, quando quero aventura corro atrás, basicamente é isto, até porque nunca no futebol andei atrás de dinheiro, foi uma coisa que sempre foi secundária para mim. Quanto a treinar no estrangeiro já exige deslocações de avião, semanas ou meses de ausência, já é uma situação que tem de ser bem pensada. Para teres uma ideia, em 2018 abdiquei de ir para a China ganhar dinheiro à séria para ficar aqui bem pertinho de casa, na Amadora. Acho que isso diz tudo.


O que te motivou a treinar no estrangeiro

Sempre a aventura, conhecer novos países, outras realidades, de norte a sul do globo terrestre tenho corrido tudo, mas atenção que não só no futebol, também particularmente, adoro viajar e isso faz de mim um cidadão do mundo. Foi sempre o que gostei da vida, conhecer outras cidades, outras pessoas, outros modos de vida, até outros estádios, com diferentes tipos de construção, tudo isso me motiva.

Sentes o teu trabalho mais reconhecido lá ou cá?

Sempre lá fora, mas na verdade sempre que lá estou sinto-me perto de voltar, é aquela sensação que adoras andar lá fora a conhecer o mundo, a gozar uma aventura, a fazer uma vida diferente, mas ao fim de uns tempos, começas sempre a pensar na tua casa, na feijoada, no cozido à portuguesa, no bacalhau, no bitoque e nas bifanas, nas tuas próprias causas, naquilo que é o teu meio ambiente. 

Quais os objetivos que pretendes atingir enquanto treinador de futebol?

A minha maior ambição é ser Seleccionador Português, não interessa o escalão, já representei 3 milhões de pessoas com as Selecções de Lisboa dos sub14 até aos séniores e um dia gostava de representar os 10 milhões de portugueses com as quinas ao peito. Depois, tenho o gosto especial pelos sítios onde andaram os portugueses, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, Angola, São Tomé e Príncipe, Macau, Timor, Sri Lanka, Goa, tantos sítios que me atraem pela nossa história, o nosso passado. Na Europa atraem-me os países do Norte, pelas diferenças culturais e a aprendizagem.


À margem do futebol, estás envolvido noutros projectos. Podes falar-nos um pouco deles?

Ui, Ui... não saia daqui nem amanhã, o meu projecto é ser feliz. Envolvo-me numa série de projectos sempre para ser feliz, para conhecer mais pessoas, para ajudar todas quanto posso com o que posso e como posso. Acredito piamente que quanto mais pessoas forem felizes à minha volta, mais feliz eu também serei. Gosto de ensinar e gosto de aprender, então estou envolvido em projectos tão diversificados que abrangem desporto, educação, cultura, política, desde associações de pais, a confrarias ou dadores de sangue, até projectos maiores que possam mudar para melhor a minha freguesia, o meu Concelho ou o meu País. 


Vir a ocupar um cargo político de relevância está nos teus horizontes?

Não. Já fui líder de bancada na Assembleia de Freguesia onde vivo, Pontinha/Famões, já fui candidato à União de Freguesias onde cresci e me fiz homem, Ramada/Caneças, fui Mandatário para o Concelho de Odivelas do Professor Marcelo Rebelo de Sousa e nunca pretendi um único cargo político. No entanto exerço um cargo político pois sou Vogal do Desporto na União de Freguesias da Ramada e Caneças, o que poderia ser mais que isto, um dia Vereador do Desporto, trabalhar numa secretaria de estado ou instituição ligado ao Desporto, não sei.

Nunca procurei cargo nenhum e não me vejo fazer mais nada na Política que não seja relacionado com Desporto, Educação ou Solidariedade Social.


Que mensagem deixas aos nossos leitores?

Sejam felizes, já ouvi isto milhões de vezes, muita gente o repete e depois esquece-se de o ser logo no dia seguinte. Estou numa fase mais sensível, porque acabei de perder uma amiga e colega exactamente da minha idade, menos três dias do que eu, com 41 anos, uma doença fulminante como é esta doença do século, muito pior que qualquer covid19, uma doença que não gosto de pronunciar o nome mas que leva crianças, jovens, adultos e idosos, não escolhe idade nem género, não tem sentimentos nem piedade.

Por isso aproveitem a vida, as pequenas coisas, podem fazer hoje, façam agora, não deixem nada por fazer.

Deixar também um grande abraço para todos os leitores que gostam de desporto no geral, futebol em particular, esperando que tenham gostado da partilha de um pouco da minha vida e experiência. Um bem haja a todos e muito sucesso a esta revista desportiva que já é uma referência da Zona Oeste.


Texto: Duarte Nuno Gomes


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