FIQUE EM CASA COM... JOAQUIM RIBEIRO

"DAS PIORES CRISES DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE"



Como é que tens vivido as últimas semanas? - Estou em casa em teletrabalho desde o dia 17 de março e só saí uma vez para trabalhar, porque o jornal precisa de ser distribuído, e mais duas vezes para fazer compras. Durante o dia trabalho normalmente, mas depois é estranho continuar em casa, não é fácil separar as duas coisas. Apesar de conseguir fazer contactos por telefone, sinto falta de andar no terreno.


Enquanto jornalista, como é que analisas a situação? - É algo assustador, não pela doença em si mas por ser um vírus totalmente novo, para o qual não temos qualquer imunidade nem há medicamentos. Penso que todos vamos ser infetados, mais tarde ou mais cedo, mas não podemos adoecer todos ao mesmo tempo porque o sistema de saúde não teria capacidade para tratar toda a gente e seria uma tragédia ainda maior do que já é. Só que este confinamento obriga a economia a travar a fundo e em breve vamos começar a sentir as consequências. É uma das piores crises da história da Humanidade.


És a favor de que se "gira" a mensagem que se faz passar às massas relativamente à calamidade? Isto é, que haja alguma moderação nos dados informados? - Não vejo qualquer vantagem em esconder dados. Prefiro que seja tudo muito claro e que as autoridades nos digam toda a verdade, sem filtros, como aliás penso que está a acontecer, pelo menos em Portugal.


Quais as mudanças que irá provocar de imediato globalmente? - Naturalmente uma crise destas terá graves consequências. No imediato vemos a tragédia de haver cada vez mais pessoas infetadas, das quais resultam milhares de vidas perdidas. O mais grave será em países subdesenvolvidos, com sistemas de saúde muito frágeis, onde certamente os casos conhecidos estão bastante abaixo da realidade, porque não fazem testes suficientes e as pessoas morrem e não se sabe se é da covid-19. Depois a crise económica já está a fazer aumentar o desemprego e isso já começa a ser dramático, pelo menos em alguns países. A longo prazo prevejo mudanças sociais, económicas e políticas. Este é um ponto de ruptura na história, que implicará alterações na forma como nos relacionamos uns com os outros, incluindo a nível profissional, com mais tecnologia. Por outro lado, haverá uma mudança na geografia política mundial, com a China a assumir mais protagonismo, e assistiremos a um fortalecimento do papel dos estados na economia, em detrimento dos populismos e dos pensamentos mais liberais.


Estás preocupado com o futuro? - Estou, claro, porque este coronavírus não vai desaparecer de um dia para o outro e vamos continuar a viver com muitas restrições durante largos meses. O número de novos doentes pode ser controlado, mas isto só acaba quando houver uma vacina ou um tratamento eficaz. Ou então quando chegarmos a um ponto de imunidade de grupo. Como nada disso vai acontecer tão cedo temos ainda muito caminho pela frente. Por outro lado, acabámos de sair de uma crise económica mundial e vamos entrar noutra ainda mais grave. Será algo semelhante ao período a seguir à 2ª Guerra Mundial, de desemprego, miséria e fome em alguns casos, especialmente em países mais pobres.


Os profissionais de saúde são quem corre mais riscos para nos salvar. São verdadeiros heróis. - A definição de herói é de alguém comum que faz coisas extraordinárias. Os profissionais de saúde não têm superpoderes especiais, são pessoas normais, que desempenham uma profissão essencial neste momento para tratar os doentes e salvar vidas. A esses profissionais é-lhes exigido que façam o possível e o impossível e temos de lhes render a nossa homenagem, porque são eles que estão na “frente de batalha”. Mas há outros profissionais, em diversas áreas, que também estão a fazer o seu papel para que a vida continue dentro da normalidade possível.


Estás habituado a comunicar para massas. Que mensagem deixas aos leitores? - Gostava de deixar uma mensagem de esperança. Após estes tempos mais difíceis, a seguir virá um período de reconstrução e espero que as coisas mudem ao nível da solidariedade entre nações. Não é isso que se está a verificar, com países a “roubar” equipamentos de proteção e ventiladores a outros e uma União Europeia individualista e incapaz de encontrar soluções coletivas. Mas tenho esperança que depois deste período crítico haja uma nova era, mais solidária, mais ecológica e mais próspera. Talvez isto fosse necessário para “acordar” a Humanidade, que estava a caminhar para situações perigosas, de destruição do planeta e radicalismos políticos.


#vamosficartodosbem

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