FERNANDO ALEXANDRE: “O MEU COMPROMISSO É SEMPRE TOTAL”



Fernando Alexandre notabilizou-se como um médio de excelência do futebol português. Jogou cerca de uma década ao mais alto nível, tendo se assumido como o ‘patrão’ do meio-campo pelos clubes onde passou.

Natural de Ribamar, começou a jogar futebol no Lourinhanense mas rapidamente transitou para o Benfica, onde fez praticamente toda a sua formação a par de ter sido internacional português nos escalões jovens.

No principal escalão representou Estrela da Amadora, Sporting de Braga, Leixões, Olhanense, Académica e Moreirense, onde conquistou o título mais importante da sua carreira: a Taça da Liga na temporada 2016/17.

Atualmente, aos 36 anos, depois de se ter tornado num símbolo da Briosa, cumpre a segunda temporada enquanto diretor desportivo dos estudantes que militam na Liga 2.

Numa entrevista, Fernando Alexandre recorda: como começou a jogar à bola em Ribamar, o seu processo de crescimento enquanto futebolista e como Homem, até chegar ao cargo que desempenha presentemente na Académica. Em exclusivo à revista ‘Amor à Camisola’.


Quando e como começou a paixão pelo futebol?

Desde muito cedo... desde que me lembro, comecei a jogar no clube de futsal da minha terra, lá em Ribamar.

Depois fui para o Lourinhanense...


Que recordações tem do tempo que jogou no Lourinhanense?

Recordo com muito carinho os treinadores e os colegas de equipa que tive na altura.

Foram bons momentos, em que os pais nos acompanhavam para todo o lado e formou-se ali uma família.

Como surgiu a possibilidade de representar o todo-poderoso Benfica?

Na altura fui abordado pelo Benfica e por outros clubes. A família era toda benfiquista.

Foram os Olheiros (agora Scouts) que abordaram os meus pais e fomos seguindo o coração no fundo.


Para um miúdo da província, como foi a adaptação a um clube grande e à maior cidade do país?

Difícil. Era muito novo. No primeiro ano fazia a viagem de ida e volta diariamente, para treinar, com o apoio familiar. Foi muito cansativo para mim e para os meus familiares que me ajudaram nesse percurso: pai, tio e um amigo do meu pai.

Além, de que era uma realidade completamente diferente: colegas de diferentes idades, diferentes educações e diferentes comportamentos. Exigiu uma adaptação que demorou algum tempo e que não foi fácil.


Em que momento acreditou que podia vir a ser profissional de futebol?

Enquanto juvenil já se começa a ter uma percepção maior da nossa qualidade. Ter consciência da importância que se tem, as caraterísticas que se tem. Nos juniores já ia jogando na equipa B, alternava. Assinei logo contrato profissional no último ano de juvenil ou no primeiro ano de júnior, já não me lembro bem.


Nas camadas jovens, partilhou momentos nas seleções nacionais com Cristiano Ronaldo. O que é que ele já na altura tinha de especial que fazia a diferença?

Tudo. Era o que é hoje à escala, obviamente. Completamente diferenciado no escalão, completamente melhor que todos nós. Referência clara e única tal como hoje. Tinha a capacidade de resolver jogos já naquela altura.



“A ida para o Mafra foi um passo atrás naquilo que é um percurso profissional desportivo, mas fez-me crescer muito. Arrisco dizer que foi o ano mais importante da minha carreira”.



A transição para o futebol profissional não é fácil e à época não se apostava tanto nos jovens como hoje em dia. Entre passagens pela equipa B e o empréstimo ao Olivais e Moscavide, então na II Liga, com 22 anos acaba por desvincular-se do Benfica e rumar a Mafra, para competir no terceiro escalão do futebol português. Foi um passo atrás para dar dois em frente?

Foi um processo natural. Tive uma lesão quando jogava no Olivais e Moscavide. Tive algum tempo parado e portanto sem dar sequência à intenção do empréstimo, jogar com regularidade.

A ida para o Mafra foi um passo atrás naquilo que é um percurso profissional desportivo, mas fez-me crescer muito. Arrisco dizer que foi o ano mais importante da minha carreira.


Alguma vez se arrependeu de se ter desvinculado do Benfica?

Nunca me arrependi. Cada um faz o seu caminho o melhor que pode. No final da carreira faz-se uma introspecção e tenta-se perceber o que é que se faria diferente mas, tenho a consciência e isso é o mais importante para mim que, em todos os momentos fui honesto com toda a gente, profissional sempre e dei o melhor de mim. Não há grandes ressentimentos ou grandes arrependimentos.


A boa época em Mafra... abriu-lhe as portas da I Liga.

Foi extremamente importante. Apanhei um treinador: Fílipe Ramos, que me ensinou muito. Uma pessoa fantástica com quem mantenho relação hoje.

Tirando treinar com o plantel principal do Benfica que fiz muitas, muitas, muitas vezes... pela primeira vez apanhei uma equipa de homens e nem todos viviam do futebol. Isto é um choque para muitos jogadores. A mim fez-me muito bem. Fez-me, realmente, perceber o que é o futebol e a vida. Tive ali uma perspetiva clara daquilo que queria para a minha vida e ajudou-me bastante como jogador quer na minha formação enquanto Homem, tinha 22 anos.

Tornei-me um Homem pelo menos mentalmente e todos os colegas dessa equipa em Mafra foram importantes nisso, a quem devo o meu obrigado.


Foi na Reboleira que deu os primeiros passos no principal escalão...

Acho que foi uma adaptação fácil. Não comecei como titular, mas a partir do meio da época passei a titular e fiz muitos jogos. Foi um ano difícil porque foi o último ano do Estrela da Amadora pelas questões salariais que na altura se revelaram um problema. Nesse sentido foi um ano difícil mas em termos pessoais estava extremamente contente pela oportunidade de estar na I Liga e aproveitei ao máximo esse ano de futebol.


Despontou o interesse de vários emblemas de primeira linha nacionais e internacionais, acabando por vincular-se ao Sporting Clube de Braga que já detinha o estatuto de quarto grande do futebol português. No entanto, nunca se afirmou na Pedreira. Porquê?

A equipa do Sporting de Braga era muito boa. Constituída por jogadores de enorme qualidade. Foi a melhor temporada de sempre, ficámos em segundo. Tinha na minha posição jogadores de excelência, o Andrés Madrid era um jogador fantástico e era suplente do Vandinho que era outro jogador extraordinário... havia, também, o Hugo Viana que dispensa qualquer apresentação, ou seja, não havia espaço para me poder afirmar. As pessoas queriam que ficasse mas para ter mais jogos o melhor era sair e foi também a opinião do meu empresário [Paulo Barbosa] na altura. Acabei por ser emprestado ao Leixões para poder jogar com regularidade.


Sempre uma figura em destaque pela positiva nos clubes que representou na I Liga. Viria a desvincular-se do Braga e tornar-se jogador do Olhanense. Sente alguma mágoa por não ter tido mais oportunidades para jogar num clube de topo em Portugal?

Tive oportunidade de regressar a Braga mas não se concretizou. No futebol é muito o momento. Não me arrependo de nada rigorosamente. Os clubes por onde passei foi em consciência que decidi representar e a mesma consciência hoje se mantém, sempre com critério.

No Olhanense estava bem, tratavam-me bem, sentia-me bem, sentia que tinha importância.

Mais tarde, na Académica, exatamente a mesma questão. Dei sempre o meu máximo quer num clube, quer no outro. Isso fez com que as pessoas gostassem de mim.

Consciente que no futebol as decisões são para ser tomadas e seguir em frente. Não tenho qualquer mágoa por não ter chegado mais longe. Fiz o meu trajeto e não me arrependo nada.


O que o levou a trocar o Olhanense pela Académica?

Os convites do então presidente da Académica e do mister Sérgio Conceição [treinador da Briosa na altura] para vir e aceitei. Em simultâneo, estavam a processar-se mudanças no modelo de gestão do Olhanense que passou a Sad, entraram pessoas novas...

Sérgio Conceição teve um papel muito importante na sua carreira.

Sim, claro!


Que ligação mantêm hoje em dia?

Não temos uma relação diária. Mas, quando estou com ele há sempre um grande carinho, grande respeito e grande admiração pela importância que teve na minha carreira, pela pessoa que é e pelo treinador que é.



Chegou a Coimbra no Verão de 2013 onde voltou a impor o seu futebol. No entanto, o maior título da sua carreira viria a ser ganho duma forma quase inesperada, já após a descida da Académica à II Liga. No início de 2017 foi emprestado ao Moreirense, que no final de Janeiro disputaria a final-four da Taça da Liga 16/17 no Estádio Algarve. E foi em representação dos cónegos que conquistou essa prova.

Que memória guarda da reviravolta histórica, na segunda parte, da meia-final frente ao Benfica (3-1) que coincidiu com a sua entrada em campo?

Foi um momento especial porque nos possibilitou a ida à final. É um momento histórico para o clube e sem dúvida para as carreiras de jogadores que fizeram parte, incluindo a minha.


“... mesmo onde perdi, saí de consciência tranquila e isso é o mais importante que retiro da minha carreira: o meu compromisso é sempre total”.


Na final, contra o Sporting de Braga, jogou os 90 minutos, contribuindo para a conquista do troféu. Sente que foi o momento mais alto da sua carreira?

É um troféu. Uma vitória numa final são sempre momentos que guardamos, claro. Fiquei contente porque contribui e por ficar na história do Moreirense.

Momentos altos da carreira não consigo defini-los porque o compromisso foi sempre máximo e por isso mesmo onde perdi, saí de consciência tranquila e isso é o mais importante que retiro da minha carreira: o meu compromisso é sempre total.


“Tenho pela Académica um carinho enorme. Não há como negar que se torna especial na minha vida”.


Concluída a temporada, com a manutenção da equipa nortenha no principal escalão, e terminado o empréstimo regressou à Académica e foi lá que viria a terminar a sua carreira passadas três épocas. Iniciando de seguida as funções de diretor desportivo. Como define a sua ligação à Académica?

Primeiro que tudo um orgulho enorme, desde o primeiro dia em que aqui cheguei, em representar a Briosa.

Tenho passado cá vários anos, marca uma vida.

Acho que a importância que ganhei internamente tem muito a ver com a minha postura e o meu comportamento desportivo quer no balneário, quer no campo.

Tenho pela Académica um carinho enorme. Não há como negar que se torna especial na minha vida.


Que objetivos quer atingir ainda nos estudantes?

No futebol é muito o dia à dia pelo que vivo o presente e para já estou focado em não descermos de divisão.


Tem em mente algum projeto para a sua terra natal? Por exemplo, criar uma escola de futebol em Ribamar?

Depende das oportunidades. Não foi algo que tenha pensado, mas obviamente tudo depende do momento e das oportunidades. Neste momento, estou muito empenhado e atarefado com a Académica e não penso em mais nada.


Imagino que mesmo à distância esteja a par dos projetos que estão a ser construídos no Grupo Desportivo de Ribamar?

Fico muito contente de que as coisas estejam para se concretizar em Ribamar. Tenho pessoas da família envolvidas nesses projetos para criar valor para Ribamar e sinto muito orgulho nisso. Tenho um tio [João Martins] que luta por fazer crescer a parte desportiva em Ribamar e gosto muito dele.


Que palavra deixa aos jovens ribameiros que sonham em ser profissionais de futebol?

Há que acreditar. Há que se dedicar e isto é muito importante, implica fazer cedências difíceis muitas vezes.

É uma carreira que não é só o que se vê na televisão, os que ganham dinheiro e os que têm Ferraris e por aí fora.

Há, também, os profissionais que ganham menos dinheiro mas que são igualmente dignos.

Chegar a profissional não resolve a vida. Importa ir ao máximo, também, com os estudos e com a formação académica.


Texto: Duarte Nuno Gomes

Fotos: Direitos Reservados

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