Entrevista com Pedro Margarido, presidente da União de Freguesias de Lourinhã e Atalaia



Como é que se meteu nisto da política e da vida autárquica desde há 20 anos?

Eu possuía uma oficina de motos e de bicicletas e fui convidado em 1993 para fazer parte da lista para a Assembleia de Freguesia da Lourinhã. Fui um pouco relutante, mas disseram-me que queriam uma pessoa de cada aldeia e então aceitei e pedi para ficar nos últimos lugares. Mas depois quando foram apresentadas as listas eu estava em quinto lugar.

Ganhámos essas eleições, em 1993 e estive no executivo da Junta, primeiro como vogal e depois como tesoureiro, com a dona Helena Máximo, pessoa que muito estimei ao longo dos anos em que trabalhei com ela. Durante esse período, assumi funções nas obras e na administração, porque ela não tinha carta de condução.


Que projetos é que tinha quando tomaram posse?

Quando tomámos posse a Junta tinha pouco dinheiro, sendo as transferências da Câmara Municipal quase nulas. Então começámos a negociar com a autarquia e a partir dai começou a haver verbas para fazer mais pelo desenvolvimento da freguesia. A par disso, as Juntas de Freguesia do concelho criaram a Associação de Freguesias, que tem sido uma peça fundamental para a negociação em conjunto com a Câmara e esta, muito bem, analisou que descentralizando para as Juntas era uma mais-valia na concretização de algumas obras para o bem-estar da população.

A situação financeira não é aquela que nós queremos e os projetos não saem de um momento para o outro, mas com perseverança e imaginação conseguimos realizar muitos projetos. Por exemplo, na altura, em 2006-2007, conseguiu-se fazer parte do saneamento em algumas zonas turísticas da freguesia...


Esse desafio de trabalhar para a população dá-lhe satisfação?

Qualquer pessoa pode ser presidente de Junta, mas a vocação e a dedicação à causa são muito importantes, porque não temos relógio. Durante 24 horas somos confrontados com diversas situações e temos que estar disponíveis. Sinto muito orgulho quando consigo resolver um problema a um cidadão, porque é essa a minha função. Espero não ter defraudado os que têm votado na minha equipa para gerir os destinos da Junta de Freguesia.


Há algum projeto do qual que tenha mais orgulho?

Sim, há vários. Um deles foi o arranjo da zona da foz da Praia da Areia Branca, que estava desprezada e não dignificava a freguesia. Concretizou-se também graças a uma candidatura, não foi só dinheiro da Câmara e da Junta. Foi uma obra que hoje é uma mais-valia para o turismo, uma peça fundamental no desenvolvimento do concelho e especialmente da freguesia.

A freguesia tem esse potencial turístico do litoral, mas há também o interior...

No interior da freguesia a agricultura que tem muito peso. Uma coisa complementa a outra. A agricultura tem de ser apoiada e acarinhada e temos investido milhares de euros na reparação e manutenção dos caminhos agrícolas, para que os agricultores possam ir em qualquer altura do ano às suas fazendas. Algumas freguesias só têm o interior, outras só têm o litoral, esta tem as duas vertentes bem como os desafios que acarretam.



Em relação à atividade desportiva, dentro da área da freguesia há clubes com expressão. Para além dos desportos de mar. Confirma-se o campeonato europeu de “freeride”?

Está previsto ser realizado em maio deste ano mais uma edição do “Freeride”. É um grande evento no concelho.

Aproveito para destacar as pessoas que trabalham nas associações, de forma voluntária, prejudicando por vezes a sua vida pessoal e familiar. Nós, executivo da Junta, damos muito valor ao associativismo. Ainda, recentemente atribuímos um valor monetário a cada associação e, com esta situação da pandemia, doámos também álcool gel e máscaras.

As associações que estão na área geográfica da freguesia, que são muitas, de âmbito desportivo, cultural e social, têm um grande papel nas comunidades. Nesta situação do Covid-19 temos apostado ainda mais no apoio às associações porque são pilares sociais e que integram muita gente, os atletas, os pais, os avós. São muitas pessoas para as quais é importante terem uma ocupação desportiva ou recreativa.

Também, o desporto atrai pessoas à freguesia e temos desenvolvido iniciativas para que as pessoas venham à vila e por consequência consumam no comércio local, na restauração e nos alojamentos, porque é fundamental que a pessoa quando vem à Lourinhã, fique aqui uma noite ou duas. No presente não temos um hotel de grande dimensão, mas temos cada vez mais alojamento local, com qualidade, para as pessoas e famílias que vêm visitar o parque de dinossauros e ficam aqui uma noite ou duas e aproveitam para visitar o concelho e a região.


O parque dos dinossauros é uma mais-valia para a freguesia?

Veio trazer mais dinâmica ao turismo na freguesia. Embora este tenha retirado alguns visitantes ao museu da Lourinhã e por consequência ao centro da vila, mesmo aqui ao lado da sede da Junta. No entanto é compreensível porque para se fazer um parque daqueles era preciso ter uma área grande. O consórcio encontrou aquele espaço, que já pertencia à Câmara Municipal, para o parque de dinossauros e temos tudo a ganhar, porque as pessoas vêm, ficam cá uma ou duas noites, almoçam ou jantam na vila da Lourinhã, contribuem assim para o desenvolvimento da economia na área geográfica da freguesia e do concelho, porque também não quero tudo para a minha freguesia, desde que venha para o concelho, tudo bem.


É um presidente mais de terreno do que de gabinete?

Começo todos os dias no armazém da Junta, às 07:45 horas, quando o pessoal está a sair para a rua e às 17 horas estou lá de novo com eles. Acompanho diariamente o trabalho que é feito porque por vezes podemos pensar que este é realizado de uma forma, mas depois no terreno as coisas podem não ser tão fáceis como pensamos.


Como uma Junta de Freguesia é uma autarquia mais pequena o presidente é também uma espécie de encarregado?

Perfeitamente, também é uma espécie de encarregado. No meu caso 75 por cento do tempo ando na rua e o resto do tempo estou em reuniões ou no gabinete. Geralmente não fica nada por assinar para outro dia. Costumo transmitir às excelentes colaboradoras que temos na secretaria da Junta que se eu estiver no gabinete e uma pessoa vier para fazer um atestado, eu assino e ela leva logo. Dou por exemplo, as provas de vida dos cidadãos idosos, que sem estes documentos lhes pode vir a ser cortada a pensão, tento que levem o documento no mesmo dia, para não se terem de deslocar aqui noutro dia para levantar o papel. Se eu estiver no edifício da Junta o documento é assinado na hora.


A freguesia também tem algumas associações culturais. Qual a importância delas?

Temos duas bandas filarmónicas na freguesia, a da Atalaia e a da Lourinhã e um rancho folclórico que são os representantes das tradições e cultura do povo da freguesia aonde quer que atuem. Damos também apoio, não só financeiro, como quando necessário em situações, como no transporte de pessoas e equipamentos.


Acha que a pandemia veio prejudicar a atividade das associações?

A pandemia prejudicou de alguma forma todas as associações, que viram reduzidas as suas atividades que era onde angariavam grande parte dos valores para o seu funcionamento. Prejudicou também algumas iniciativas da Junta de Freguesia que ajudavam as associações, como o festival da abóbora ou a feira saloia. O festival da abóbora já se fazia há seis ou sete anos e este ano houve só uma mostra na vila da Lourinhã. Sessenta por cento da produção de abóboras a nível nacional é no concelho da Lourinhã.


Nos próximos quatro anos há algum projeto em especial para concretizar?

Há projetos que considero fundamentais para o desenvolvimento da freguesia e que já ando a falar neles há algum tempo. A recuperação do eixo ribeirinho, o arranjo do Parque da Cegonha, a recuperação da zona envolvente ao castelo, a recuperação do eixo dunar da Praia da Areia Branca ao areal sul e gostaria muito também que neste mandato fosse construída a ciclovia entre a praia da Areia Branca e o Paimogo. Está previsto ter à volta de sete quilómetros de ciclovia na Freguesia, entre Lourinhã e Paimogo, da Praia da Areia Branca até à Zambujeira do Mar e futuramente da Lourinhã a Nadrupe. Outro projeto importante é a recuperação das fontes em todas as aldeias, porque é um património importante para a nossa história coletiva e as pessoas valorizam muito a sua recuperação. Gostava ainda que a situação da foz na Praia da Areia Branca ficasse resolvida, por um lado pelo aspeto ambiental da freguesia e por outro para minimizar os problemas na época balnear e gostava de ver concretizada a variante da Lourinhã para um melhor escoamento de trânsito à entrada da vila.


Texto: Joaquim Ribeiro

Foto: Direitos Reservados

24 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo