Entrevista com João Duarte Carvalho, presidente da Câmara da Lourinhã

Atualizado: 2 de abr.

“Estamos a apostar na atração de turistas”

Sendo este o último mandato como presidente da Câmara, que balanço faz dos dois mandatos anteriores?

Fazendo uma análise ao trabalho efectuado, considero que foram dois mandatos extremamente positivos. Definimos como área prioritária a educação. Nesse sentido, concluímos a requalificação de todo o parque escolar do concelho, com a construção de uma nova EB 2,3 bem como a requalificação de um conjunto de escolas básicas, criando as melhores condições para todos os nossos alunos, face ao bom aproveitamento dos quadros comunitários.

Neste momento o nosso foco é concluir as redes de saneamento do concelho, bem como o reforço das condutas de abastecimento de água, face ao aumento de população residente que felizmente temos vindo a registar. Também a recuperação das vias de comunicação, a mobilidade e a recolha de resíduos terão a sua importância.


A aprovação do novo PDM também tem ajudado?

Somos o único município da região Oeste com um novo PDM, que entrou em vigor em setembro de 2019. Se por um lado permitiu um crescimento das operações urbanísticas, acompanhando a procura face à nossa localização em relação a Lisboa e perto do mar, por outro lado tem condicionado algumas intervenções, que estão neste momento a ser corrigidas.


O mar para o concelho da Lourinhã é fundamental?

É, porque temos 12 quilómetros de costa e hoje todas as atividades ligadas ao mar são importantes. Temos vindo a promover um conjunto de eventos, como o FreeRide (Campeonato de Motonáutica), que se vai realizar de 6 a 8 de maio próximo. Temos melhorado as condições e acessos às nossas praias, estamos a realizar uma intervenção de recuperação dunar e construção de passadiços entre o Areal e a Praia da Areia Branca de forma a melhorar as condições para quem nos visita. Estamos também a fazer obras nos portinhos, nomeadamente em Porto das Barcas e queremos fazer obras em Porto Dinheiro e em Paimogo. Em Paimogo vamos reativar e melhorar o forte, uma obra muito desejada por muita gente no concelho e por nós também. A candidatura já foi aprovada, agora falta uma outra para recuperar a arriba. Faz parte da nossa história, o desembarque na Batalha do Vimeiro ou a Batalha de 1808.

São várias vertentes e isso tem trazido muita gente ao nosso concelho e penso que toda a região ganhou com isso também.


Para além dos dinossauros...

Exatamente. Esse foi também um grande investimento. O meu anterior colega tinha tentado, mas não conseguiu porque ainda não tinha fundos para desenvolver o projeto. Entretanto houve uma abertura do Turismo de Portugal e conseguimos, em articulação com a PDL, empresa que eu já tinha visitado na Alemanha. A direção do Museu da Lourinhã teve um papel importante também na cedência de espólio. O Dino Parque está afastado da vila, mas o sítio tinha de ser enquadrado com os modelos que lá temos. Temos 180 modelos no Dino Parque e temos também alguns dentro da vila da Lourinhã, com o objectivo de criar uma Rota Urbana dos Dinossauros, fazendo com que os visitantes circulem pela vila.

Outro projeto que poderá potenciar o concelho e que já foi entregue à Câmara Municipal, é uma piscina de ondas, que ocupa 14 hectares e meio. Espera-se que a piscina em si tenha 25 mil metros quadrados e que associada à sua construção, surjam também equipamentos de apoio à piscina, um possível hotel e outras infraestruturas, num investimento totalmente de iniciativa privada.


Parecido com a que existe em Armação de Pêra?

Exatamente. O investimento não é português. Penso que vai ter impacto, porque estamos perto do aeroporto e perto do mar. Por isso queremos trabalhar neste próximo mandato na melhoria das infraestruturas. Ou seja, precisamos rapidamente de resolver a acessibilidade da A8 à Lourinhã e até Peniche, o tal IC11. Mas no imediato queria uma obra mais rápida, o melhoramento da EN8-2, fazer faixas para viaturas pesadas e lentas e variantes à Marteleira, à Lourinhã e ao Alto Foz. É uma obra com baixo custo de execução e estaria pronta no máximo em cinco ou seis anos.


A Câmara da Lourinhã está a apostar muito no turismo?

Sim, e sentimos que há muitos estrangeiros que têm procurado casa aqui no concelho. Queremos que venha muita gente à Lourinhã, às praias, ao Dino Parque, ao Centro de Interpretação da Batalha do Vimeiro, ao Moledo e à sua Mostra de Arte Pública, ao Espaço Olhar o Mar em Ribamar, há muito investimento que temos vindo a desenvolver de forma a atrair visitantes para estadias maiores que um dia. E no fundo a toda a região, trabalhamos muito bem na Comunidade Intermunicipal (CIM) do Oeste, porque é importante que a região fique bem servida de infraestruturas, nomeadamente a eletrificação da Linha do Oeste de Lisboa a Torres Vedras, de Torres a Caldas da Rainha e para norte das Caldas.

Só que também precisamos de melhorar os cuidados de saúde na região e estamos a fazer pressão para termos um novo Centro Hospitalar no Oeste.



Caldas da Rainha e Torres Vedras não abdicam do novo hospital nos seus territórios. Quem vai ceder?

Tem que haver um compromisso entre os autarcas para o hospital ficar junto à A8 e numa zona central. Estamos a trabalhar nisso e penso que muito brevemente teremos a localização aprovada.


Falou em vários projetos na região, como o novo hospital e também a modernização da Linha do Oeste. São estruturantes para a região e em particular para o concelho da Lourinhã?

A Linha do Oeste passa muito próximo do nosso concelho, temos duas freguesias que beneficiam, Moita dos Ferreiros e Reguengo Grande. Pensamos que o novo hospital também deve ficar junto à A8, entre Bombarral e Campelos, para nós era importante. Estamos à espera do estudo contratualizado pela OesteCIM.

No futuro está-se a pensar criar uma ITI (Investimentos Territoriais Integrados à escala NUTS III na Região Centro) com as regiões Lezíria Tejo e Médio Tejo, com o Oeste, para candidaturas a partir de 2027 ou 2028. Já há conversações e o Governo aceita, porque a CCDR Centro tem 100 concelhos e nós com estas três CIM tínhamos 36 concelhos, que podia potenciar mais os investimentos na região, que tem características próprias.


E houve novos investimentos no concelho?

No mandato anterior conseguimos uma requalificação de toda a nacional 8-2 mas não é suficiente. Passámos 50 por cento da iluminação pública para LED, faltam os outros 50 por cento. Sem candidaturas não se consegue ir muito longe e para este mandato estamos a trabalhar na resolução do leito de cheias da Lourinhã, um investimento que pode ir até quatro ou cinco milhões de euros.

Também através do Portugal 2020, temos vindo a desenvolver alguns projectos como o Parque Verde da Cegonha, a requalificação do eixo ribeirinho da vila, a Requalificação da envolvente da Igreja do Castelo… Portanto, tudo carece de projetos para avançarmos e há um conjunto de investimentos no âmbito do programa 2030.


O turismo é uma das áreas mais fortes do concelho mas há também a agricultura, como a abóbora, por exemplo?

Sim, somos os maiores produtores da região. Depois, Torres Vedras e Lourinhã são os concelhos mais fortes na produção de hortícolas, uma parte para exportação, temos a pêra rocha, com o Cadaval e o Bombarral, e ainda a maçã de Alcobaça. Somos uma região muito rica na área agrícola. Para além da vinha, com uma qualidade extraordinária, temos aqui dois operadores da Região de Lisboa, S. Mamede da Ventosa, de Torres Vedras, o maior produtor de vinho do país, e aqui na Lourinhã o AJ Vinhos, que é o segundo maior produtor.


Sem esquecer a aguardente DOC Lourinhã?

Claro. No mandato anterior adquirimos as instalações da Adega Cooperativa, numa forte aposta em manter a região demarcada, que abrange o concelho da Lourinhã, Bombarral, Óbidos, Peniche e duas freguesias de Torres Vedras. É uma das três regiões demarcadas de aguardente da Europa, para além de Armagnac e Cognac. Temos dois operadores, a Quinta do Rol e a Adega Cooperativa, que fazem um produto de alta qualidade e não fica nada atrás das outras duas aguardentes da Europa.


Em relação ao associativismo, a Câmara investiu em infraestruturas desportivas mas que estão entregues a associações?

Exatamente. E temos contratos programa de desenvolvimento desportivo com essas associações para ajudar a financiar as suas atividades, com o Sporting Lourinhanense, o HC Lourinhã, o futsal da Zambujeira e Serra, Pregança e Ribamar, o Judo, o Karaté, entre outros, mas também potenciamos a cultura com apoios aos agentes culturais (bandas filarmónicas, os ranchos folclóricos e o grupo de teatro).


As associações são a expressão da sociedade civil, na promoção do ensino da música, da prática desportiva...

Sim, se não fosse assim não era possível. A Câmara não pode assumir toda essa função e com esta pandemia tivemos de ajudar as associações porque caso contrário tinham dificuldade em sobreviver.


A pandemia de Covid-19 obrigou a Câmara a um esforço financeiro que não estava previsto?

Fizemos um grande investimento, com a nossa proteção civil. Temos apoiado todas as associações, criámos um pavilhão na Casa do Povo onde montámos todo o equipamento para vacinação, em conjunto com o Centro de Saúde, a ARS, o delegado de saúde, os médicos, os enfermeiros, os bombeiros e a Cruz Vermelha. Ainda não desativámos esse pavilhão, que representa uma despesa muito grande, na ordem dos 10 mil euros por mês. Também reduzimos por um período o pagamento de água e resíduos sólidos urbanos, para ajudar as famílias e as empresas.


Foi um esforço muito grande, até na educação?

Sim, naquele período em que os alunos foram para casa, com a manutenção de alimentação, com o apoio aos alunos que tiveram aulas por teleconferência. Tivemos de ajudar em todo esse processo.


O Campeonato da Europa de Jetski Freeride era uma aposta, foi adiado mas este ano vai finalmente realizar-se. É importante para o concelho?

É um grande evento. Fizemos um acordo com a organização por três anos e depois fazemos uma avaliação, mas acho que tem um impacto muito grande e atrai pessoas ao concelho. Temos de criar essas atrações.



O PS ganhou sempre as eleições autárquicas, mas o concelho não é propriamente socialista?

Já não é tanto assim. Nos últimos anos a votação tem demonstrado que a sociedade confia no PS para conduzir os destinos do país, tendo também vencido as legislativas e europeias. Mas desde 1976 que o PS ganha as eleições autárquicas na Lourinhã, o que nos dá confiança. Temos uma plataforma de transparência em que qualquer cidadão pode ir acompanhando o ponto de situação dos nossos investimentos, no site da Câmara. Isso é importante. Queremos manter e cumprir o nosso programa de ação da melhor forma.


A transferência de competências de poder central não o assusta?

Já temos a educação há 12 anos. Somos uma equipa que gosta de ouvir as pessoas, de estarmos perto e a nossa forma de estar em conjunto com a população é que faz com que as pessoas acreditem que podemos continuar a trabalhar para melhorar as condições de vida do concelho. Na generalidade, estamos receptivos a receber as competências. Esperamos é que depois haja um equilíbrio da parte das finanças para fazer face a essas competências. Como exemplo: nós recebemos as competências no âmbito da educação há já muitos anos, mas o município investe mais do dobro do que recebe para prestar um bom serviço aos nossos alunos. Agora os custos energéticos estão a subir muito e temos de ser compensados com essa despesa a mais e o Governo tem de ser sensível nessa matéria.


Texto: Joaquim Ribeiro

Fotos: Direitos reservados

28 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo