BOLA REDONDA



Após o final do campeonato mais atípico de que existe memória todos nós continuamos com muitas saudades do futebol, porque tivemos futebol até meados de Março mas que foi interrompido abruptamente pelo vírus que mudou as nossas vidas, Covid19.

A restituição das últimas jornadas da primeira liga deram-nos uma espécie de futebol, de estádios vazios, sem emoção, onde os jogadores marcam um golo e não podem correr para o seus adeptos para festejar, onde um centro campista falha um passe escandaloso e para além dos seus colegas e treinador da equipa, não há público para julgar, onde a pressão diminui 300% e onde se verificou que afinal de contas o público é mesmo o 12º jogador.

A falta deste 12º jogador, foi demasiado evidente, pela motivação que coloca nos seus jogadores, pela pressão que coloca no árbitro, na prática um juiz que decide pormenores importantes do jogo, pelo que contesta nas decisões dos treinadores, pela moldura humana que faz espelhar a importância dos jogos, pelo espectáculo que ganha um glamour diferente quando visto e analisado ao vivo por milhares de pessoas.

Na verdade, desta forma os chamados grandes do nosso Futebol, muitas vezes pareciam equipas comuns, que se bateram com os adversários e de quem se esperava sempre mais do que aquilo que foi apresentado, Porto, Benfica, Braga, Sporting, nunca conseguiram apresentar um futebol que convencesse e independentemente da classificação, foi unânime que a falta de público prejudicou os tubarões do futebol português no que ao seu rendimento desportivo diz respeito. A destoar deste ram ram em que se tornou o final de campeonato, tivemos o Rio Ave do Mister Carlos Carvalhal que conseguiu chegar à Europa através de uma luta constante e até final, em que tudo se resolveu nos últimos 90 minutos de campeonato, com direito a todas as emoções, desta feita para telespectadores, uma vez que os espectadores não existiram. Carlos Carvalhal que na sua carreira tem sido um maratonista, muitas vezes até incompreendido na sua posição mais científica de ver o jogo, com êxitos muitas vezes esquecidos como a presença na final da Taça de Portugal em 2002 com o Leixões na então 2a Divisão B, a vitória na Taça da Liga em 2008 com o Vitória de Setúbal ou o facto de ter sido considerado o Treinador da Década no Sheffield Wednesday que representou de 2015 a 2018, mereceu inteiramente nesta fase da carreira este prémio tão saboroso que é trazer o Rio Ave aos palcos europeus, sem retirar com isto qualquer mérito ao Famalicão que fez um excelente campeonato, com futebol atractivo e foi sempre um outsider na luta europeia de forma um pouco até surpreendente pois era um dos recém promovidos a este campeonato.

De alguma forma ficámos surpreendidos por não se ter finalizado a 2a Liga e mesmo CPP etc, será que com a quantidade tão diminuta de espectadores que temos nas ligas inferiores, não seria possível ter terminado estes campeonatos? Será que estes clubes costumam vender mais que um terço dos bilhetes da lotação dos respectivos estádios? Julgo que não, pelo contrário, muito longe disso. Sendo os estádios espaços abertos, apresentando medidas de higienização e espaços limitados onde cada espectador se podia sentar, hoje e pensando mais a frio toda esta questão, julgamos que talvez pudesse ter sido possível. Mesmo que os clubes só colocassem à venda um terço dos bilhetes da capacidade do estádio, teria alguma lógica. Na verdade, os clubes dificilmente venderiam um terço desse terço de bilhetes que colocariam à venda e os campeonatos teriam um desfecho desportivo muito mais justo. Tivemos de aguentar as circunstâncias, mesmo tendo visto em alguns casos, com as decisões, os nossos próprios clubes morrerem à beira da praia, quando na verdade sabemos que aquelas bancadas nunca estariam cheias, porque não temos essa quantidade de espectadores semanal nos estádios que sonhamos ter nas divisões inferiores.

O futebol parado abriu espaço para os debates dos "paineleiros", a todos os níveis, na TV, na internet, sites, facebook, instagram, etc, nesse aspecto vimos que afinal o que a "malta" gosta mesmo é de colocar gente a falar, do que sabe, do que não sabe, chegando muitas vezes os respectivos "paineleiros" aos painéis sem trabalho de casa e sem sequer saber do que iam falar, muitas vezes à própria da hora a interrogarem-se se afinal era assim ou assado, pergunto-me eu se custaria assim tanto procurar as pessoas com formação adequada para o fazer. Provavelmente não, mas muitas vezes até dá jeito é promover os amiguinhos.

Pasme-se quem pense que isso foi mau de todo, pelo contrário, teve um efeito muito bom, pois as principais TV's generalistas, passados tantos anos, sentindo-se eventualmente envergonhadas por qualquer um com um portátil com câmera poder fazer uma salada russa à imagem daquilo que nos foi transmitido durante anos, tendo então capacidade de ver que o seu espelho não reflecte aquilo que eventualmente pretendem. Nesse aspecto foi muito positivo e vão agora as TV's acabar com os programas de "paineleiros" e noutro formato completamente inovador e mais dignificado colocar a falar de futebol as pessoas mais credenciadas do futebol, quem sabe até gente com o nível 4. 

Por falar em nível 4, ou UEFA PRO, como é oficializado o seu nome, desde sempre defendi que os Treinadores, tal como todas as classes profissionais, devem ter formação adequada para desempenhar as suas funções, senão qualquer "sapateiro" pode ser Treinador de Futebol e com todo o respeito pela profissão em causa, que serve de mero exemplo, eu não queria ser operado por um sapateiro, nem viver num prédio construído por um sapateiro, nem ser defendido em tribunal pelo meu querido Sr. Lopes, sapateiro no Bairro dos Pedernais desde que me lembro. O Sr. Lopes é um excelente sapateiro, é todo benfiquista, vive o futebol como ninguém, desde criança que lhe acho imensa piada, mas daí a dar-lhe a minha equipa para treinar vai uma grande distância.

No entanto, julgo que o problema do acesso aos cursos de Treinador está nos critérios de selecção, entre o nível 3 e o nível 4 estive 11 anos, foi de 2006 a 2017, porque até lá sabia que corresponder aos critérios era muito difícil e só quando treinei como Treinador Principal ao nível da First Division da República da Irlanda soube que a esse nível teria que ser admitido. E fui!!!! Os cursos fiz-os todos aqui em Portugal segundo as nossas regras, desde o nível 1 ao nível 4, e fiquei sem dúvidas nenhumas de porquê os portugueses são os melhores treinadores do mundo, porque simplesmente formamos muito bem, se formos ver não só treinadores, mas também médicos e outras profissões de difícil acesso. Então qual é o verdadeiro problema? Os critérios de selecção.

Durante a minha vida tenho tido várias referências como Treinadores de Futebol, pessoas que estão em patamares mais elevados que eu com quem eu gosto de aprender, pessoas como Jesualdo Ferreira, Carlos Queirós, Sven-Goran Eriksson, José Mourinho, Scolari, Carlos Carvalhal, José Peseiro, Arsene Wenger, Rafa Benitez, Vítor Pereira, Manuel Machado, Villas Boas, Leonardo Jardim, Rui Vitória, Luís Castro, Bruno Lage, Luís Freire etc... Tantas referências que até posso estar a cometer a injustiça de me ter esquecido de alguém. Aqui entra o assunto onde quero chegar, Luís Freire, pela primeira vez tenho uma referência de um Treinador mais Jovem do que eu próprio, que veio das divisões inferiores aquelas que eu próprio jogava, um estudioso do futebol, licenciado em Educação Física e Desporto, que andou de porta em porta a pedir patrocínios para os seus clubes desde o tempo em quando treinava o maravilhoso e poético GDU Ericeirense, um clube de uma das mais belas Vilas de Portugal, mas que tinha as suas dificuldades económicas como quase todos os clubes distritais. O Luís Freire que acompanhei desde essa altura, já vi disputar todas as divisões em Portugal, subiu naturalmente da última distrital até à 1a Liga, obviamente que nos critérios de selecção dos cursos tinha de caber uma personalidade destas, uma das grandes referências dos jovens portugueses que ambicionam ser treinadores e com respeito enorme de outros mais consagrados. Então, do muito que se tem falado, e julgando-me eu sempre no grupo dos sensatos, longe dos radicalismos que muitas vezes vou lendo ou ouvindo, penso que aquilo que urge a uma reflexão rápida, com uma resposta adequada e incisiva, não são os cursos de treinador, a quantidade ou a qualidade destes, pois os nossos são simplesmente os melhores do mundo, mas sim os critérios de selecção e acesso aos mesmos. O Luís Freire merecia ter entrado no respectivo curso, disso não existe dúvida alguma, tal foi o mérito deste jovem Treinador que sempre cumpriu as regras e que agora chega a um ponto, tão rapidamente, que são as regras que não estão adequadas ao seu caso.

E por falar em patrocínios, desde que me lembro de começar a tirar o curso de nível 1 em 1997, faz 23 anos, que oiço falar em carolice, em treinadores que pagam para treinar, dirigentes que pagam para dirigir ou jogadores que pagam para jogar, e essa é a realidade que sempre conheci até hoje da formação de jogadores em Portugal ou dos seniores distritais, pelo simples facto que aquilo que ganham não chega para as despesas que muitas vezes têm, de repente começo a ouvir um ruído imenso à volta disso, a serem questionados os Treinadores que tal como o próprio Luís Freire, a certa altura da sua vida foram arranjar patrocínios para os seus clubes, para inscreverem os jogadores que quiseram, para terem melhores equipamentos ou simplesmente melhores condições de trabalho e até terem um vencimento mais adequado ao seu verdadeiro trabalho, pois assim o clube anda francamente mais desafogado. 

Li muitas opiniões sobre isso, algumas muito radicais, outras extremamente sensatas e cheguei à conclusão que quem paga para treinar é o tipo que não evoluiu e continua a treinar de borla, então o que gasta em gasolina, portagens e outras coisas para chegar aos treinos e jogos faz com que perca dinheiro, por carolice, que também não é crime para treinar. Já o Treinador que para onde se descola leva atrás de si, da sua imagem ou reputação para os clubes que representa, investimento ou patrocínio, seja ele 1000, 10.000, 100.000 ou 1 Milhão de Euros não paga para treinar, muito pelo contrário, vai receber o seu vencimento para o efeito todos os meses e vai desenvolver o seu trabalho com os jogadores mais felizes porque têm mais condições, agora o que é impossível comparar é mesmo o incomparável, como é uma venda ambulante ou mesmo uma mercearia de bairro em relação aos Colombos, Vascos da Gama, Dolce Vitas desta vida.

O Ronaldo nunca pagou para jogar, mas quem tem capacidade para o contratar por 100 Milhões sabe que num espaço de 2 anos em publicidade, direitos de imagem, merchandising, camisolas e outros equipamentos desportivos vai receber 300 Milhões, assim já aconteceu o mesmo com o José Mourinho para treinar e os maiores dirigentes desportivos das maiores SAD's do mundo para dirigir. Chamamos a isto economia de mercado, os agentes desportivos ganham o seu vencimento mas também dão muito dinheiro a ganhar aos seus clubes.

Em relação ao futuro, espero que tenhamos uma época desportiva normal para a época que agora se aproxima, exista razoabilidade nas decisões, que tenhamos gente nos estádios, nem que seja com apenas um terço da sua capacidade, que as crianças e os jovens possam voltar a brincar, treinar e jogar à bola e viver o seu futebol, para se desenvolverem como jogadores e futuros homens, assim como bons cidadãos, que os campeonatos voltem a ser apelativos e competitivos, que os treinadores voltem a crescer nas suas experiências distritais, nacionais ou internacionais, que os dirigentes ajudem a traçar os novos caminhos e também eles procurem formação. Da minha parte tive muita pena de ter os "meus" jogos contra a África do Sul adiados por tempo até agora indeterminado, ter visto ser adiado o Torneio Internacional da Pontinha e os seus visitantes, clubes como PSV Eindhoven, Anderlecht, Bétis de Sevilha, Nordsjaelland da Dinamarca ou os portugueses mais consagrados como Benfica, Sporting, Porto, Braga e Setúbal, ter assistido com impotência à paragem de Odivelas-Cidade Europeia do Desporto e todas as nossas vidas normais, mas ao mesmo tempo com uma forte e renovada esperança no futuro, com uma humanidade mais consciencializada que fazemos parte de um todo, mais unida no combate às guerras, às doenças e fome no mundo, pois se existe alguma coisa que o Covid19 nos veio ensinar é que isto está tudo ligado, deve-se então pôr as mesquinhices e invejas de lado, cada um viver as suas vidas e que se deve aproveitar para sermos melhores uns para os outros e para a natureza que nos rodeia durante a nossa existência enquanto seres humanos.  

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