DE BOLA PARADA

GUILHERME RAMOS

Treinador de Futebol

Especialista em Scouting e análise de equipas e jogadores

guilherme_ramos@live.com.pt

Antes de iniciar a carreira como treinador profissional, admito que vivia um pouco na ilusão de que para ser contratado por um clube, bastaria juntar competência, resultados e cair nas mãos de alguém ligado a um alto cargo do clube e que a partir daí passaria imediatamente a ser uma opção válida. 

Sem querer ser “estraga sonhos” de ninguém, a verdade é que para se chegar ao alto nível, aos melhores campeonatos e clubes, é preciso para além do que referi, que se reunam um sem número de situações e acontecimentos (que a esmagadora maioria não controlamos) e que depois interligados podem ou não ditar a contratação ou não de uma equipa técnica. 

A história tem tanto de engraçada como de surreal. Recuemos a Março de 2017. Poucos dias após a nossa saída do Olhanense SAD, surge uma possibilidade forte de nos mudarmos para o Chipre. E não era de um clube qualquer, era o AEL Limassol, comparando a nível de estrutura e história talvez o Sporting Braga daquele país. 

Dias depois do primeiro contacto, foi pedido ao Bruno Baltazar que viajasse para reunir com o presidente, negociar e assinar contrato. O AEL vivia dias conturbados, com maus resultados e já longe dos lugares europeus que provocavam uma forte contestação por parte da fanática massa adepta (para muitos a melhor do Chipre). 

Chegado a terras Cipriotas e com a reunião marcada para o dia seguinte, eis que o primeiro revés acontece. O presidente pedira ao nosso agente para informar que a reunião já não se iria realizar e iriam optar por uma solução interna para comandar a equipa até final da época. 

Sem qualquer margem para diálogo, terminava em dois dias a possibilidade de nos mudar-mos para o AEL. 

Regressado a Lisboa, sem reunião e sem acordo, estaria então excluída esta possibilidade (julgámos). 

Precisamente uma semana depois, e após uma derrota frente ao rival Apollon no derby de Limassol, eis que surge a chamada do AEL novamente. 

Com a “garantia” que agora era de vez, fizemos as malas e embarcámos agora os dois, prontos para chegar a acordo e começar a trabalhar. 

Chegados ao Chipre já de noite e com reunião marcada para a manhã seguinte, o surreal acontece. Pelas 10h da manhã e já em pleno escritório do Presidente, eis que nos é comunicado que não iria haver reunião e que dificilmente isso iria acontecer… a história repetia-se e nós sem perceber o motivo e o porquê de duas viagens ao Chipre que por alguma razão que desconhecíamos, se cancelavam as reuniões à ultima da hora. 

Por fim, lá foi possível re-agendar o encontro para depois de almoço.

Presidente, empresário, Bruno e eu na sala de reuniões. Presidente inicia a conversa e rapidamente começa a ficar claro todo o cenário que resultou no cancelamento das reuniões e os entraves que estávamos a conhecer no processo. 

No Chipre para que se perceba, existem 8/9 sites/jornais de imprensa desportiva diária, sedentos e perspicazes naquilo que é a “captura” de informações e noticias. Ainda antes do Bruno ter viajado a primeira vez (para a primeira reunião) já todos os sites tinham avançado com o seu nome, e tornou-se público o interesse do clube. 

E foi isto que nos foi explicado na reunião, ainda que revelando que o clube estava interessado desde a primeira hora, acontecia que começaram a existir pressões e ameaças externas para que a escolha do novo treinador recaísse para um nome “conceituado e conhecido do futebol europeu” e não num jovem treinador.

A reunião encaminhava-se rapidamente para o mesmo desfecho, sem acordo, porque o clube estava receoso com a reacção geral à nossa contratação. 

A verdade é que tudo terminaria mesmo por ali e regressaríamos a Portugal, não fosse uma corajosa intervenção do Bruno “já em descontos” que guardando os pormenores para mim, terminou com um contundente “Se eu sou a sua escolha avance, garanto-lhe que os que vão contestar hoje, em duas semanas estarão a aplaudir”. Percebeu-se que o presidente não estava habituado a demonstrações de confiança deste tipo, e algo surpreendido, ao invés de terminar as negociações como tudo levava a crer, pediu-nos para aguardar no hotel até final da tarde. 

Regressados ao hotel, aquelas horas pareciam nunca mais passar, com o cenário de regressar a Portugal uma vez mais a pairar nas nossas cabeças, ainda que com a sensação de que o final daquela reunião terá dado força ao Presidente para prosseguir com a sua vontade em contratar-nos. 

Pouco passava das 19 horas e recebemos uma chamada a pedir-nos para descer até ao lobbie do hotel que o Presidente queria apresentar-nos uma pessoa. 

Já sentados nos sofás do hotel, vemos o Presidente a aproximar-se, vinha acompanhado por alguém, que diga-se, olhando para ele impunha algum respeito. Era nada mais nada menos que o chefe da claque, dos Ultras do AEL. 

Percebemos ali, que tendo a aprovação do chefe da claque, alguém que era muito respeitado no clube e na cidade, seria uma importante ajuda para o Presidente conter a contestação e seguir em frente com aquilo que era a sua vontade de nos contratar.

10…15…20 minutos de conversa, entre inglês, grego, entre gargalhadas e momentos tensos olhos nos olhos…e alguns copos de whisky também… eis que a certo ponto o chefe da claque olha para o Presidente e diz-lhe um convicto “DAX”, ou seja o OK em grego como que a aprovar a contratação. 

Nesse mesmo momento o Presidente levanta-se, estende a mão ao Bruno e com um sorriso de orelha a orelha diz-lhe “Welcome to AEL”.

Era então oficial, estávamos contratados e começávamos a trabalhar no dia seguinte. O Presidente avançava mesmo para aquela que era a sua escolha, contra tudo e contra todos, tendo o apoio crucial do líder da famosa Thira 3, caso contrário creio que não teria acontecido. 

“Em duas semanas estarão a aplaudir” lembram-se? Pois bem, julgo que não defraudámos ninguém, o impacto e os resultados positivos levaram-nos a renovar contrato ao fim de três semanas, e de uma equipa “morta” como diziam, apurámos o AEL para a Liga Europa, quatro anos depois da sua última presença. 

Literalmente num período de DE BOLA PARADA, a verdade é que a nossa cabeça não pára e tem sido um momento fértil para trazermos à memória recordações e histórias passadas, pelo que aceitei o desafio de todos os meses partilhar algumas daquelas que foram as situações mais “curisosas” pelas quais já passei, quer nos tempos em que jogava, quer já durante a minha ainda curta carreira enquanto treinador.

Já que estamos neste período de confinamento, quero partilhar convosco que isto de Confinamento não é novidade para mim, ainda que noutras circunstancias.

Recuemos ao Verão de 2018 até à cidade de Be’er Sheva em Israel a não mais de 40 km da Faixa de Gaza. Jogávamos a 1ª mão da 3ª pré-eliminatória da Liga Europa num duelo de “(H)APOEIS”, o nosso de Nicósia e o “deles” de Be’er Sheva.

De recordar que uma semana antes tinha-me deslocado sozinho a Israel para assistir à final da Supertaça e assim poder observar uma vez mais, agora ao vivo, o nosso adversário e a verdade é que regressei ao Chipre com uma maravilhosa opinião acerca da segurança no país, ainda que conhecesse a realidade dos conflitos. 

Uma semana depois, o regresso a Israel com toda a equipa. 

Na manhã do jogo é altura onde por norma ultimo todos os pormenores, nomeadamente no que às BOLAS PARADAS diz respeito. 

Assim, depois de almoço, já com os jogadores recolhidos nos quartos e a descansar, é hora de descer do 15º andar do meu quarto rumo à recepção do hotel a fim de imprimir todas as bolas paradas e sair para andar um pouco à volta do hotel para descomprimir.  

Longe de imaginar o que se iria passar quando a porta do elevador se abrisse no “ground floor”.

Agora peço-vos que visualizem tudo isto à boa maneira de “Matrix”, em camera lenta, onde tudo o que vos vou escrever aconteceu em menos de 10 segundos. 

A porta do elevador abriu…dou um passo em frente…oiço uma estrondosa explosão e imediatamente uma ainda mais estrondosa sirene da cidade que entrava pela cabeça dentro…olho para a esquerda (rua) vejo pessoas a correr, atirarem-se para o chão, largando tudo o que tinham nas mãos… olho para a direita (zona da piscina) e vejo pessoas a sair da água a correr, mesas da esplanada e cadeiras pelo ar e gritos…olho em frente em vejo pessoas a correr de um lado para o outro no hotel, sem rumo…  e por entre esta confusão e um amontoado de pessoas, olho para a recepção e vejo um funcionário do hotel a chamar-me desesperado, segurando uma porta…e arranco, pelo meio da confusão com um sprint de fazer inveja aos meus jogadores e entro nesta entrada que se encontrava disfarçada bem ao lado da recepção… a porta fechou e aparentemente estava a salvo… de recordar que 10 segundos passaram desde que a porta do elevador abriu até este momento.

Vejo umas 15 pessoas entre elas o meu presidente dentro de uma sala de 10m2 cinzenta e escura, apenas com um LCD na parede ligado… Estávamos numa “sala de pânico” sem saber ao certo o que se estava a passar. 

Um dos recepcionistas disse-nos então que a cidade estava a ser alvo de ataques e como tal teríamos de ficar ali confinados… ou seja, a minha primeira experiência de “Confinamento” numa sala de pânico, em Israel, com explosões lá fora, a poucas horas de um jogo europeu. 

45 minutos passados e com o aliviar da Sirene, conseguimos sair da sala de pânico e recolher aos quartos ainda que naturalmente impedidos de sair do hotel. 

Nesta altura e começando a ver as noticias, apercebemos-nos do incrível facto de que há 5 anos não existia qualquer tipo de ataque vindo de gaza… tinha mesmo de acontecer precisamente naquele dia…Foram lançados 60 rockets em direção a Be’er Sheva sendo que os anti-rockets destruíram 56… passaram 4.

Foram horas de tensão vividas ansiosamente por todo a comitiva na expectativa do que iria acontecer. O jogo esse, ficou em suspenso até quando faltavam apenas 2 horas para o apito inicial e a UEFA considerou haver condições de segurança para se jogar. 

Naturalmente e por mais que nos quiséssemos abstrair, havia uma certa apreensão com o “fantasma” que um novo ataque pudesse acontecer sobretudo no estádio, que estava repleto com quase 20.000 pessoas.

90 minutos depois, saímos de Israel com um empate 2 bolas o que nos permitiu uma semana depois confirmar o apuramento à próxima fase da competição com uma vitória por 3-1 em Nicósia. 

Mais do que o jogo, e uma história para contar, esta foi a minha primeira experiência no que toca a “confinamentos”, e como tal, ainda que a situação e o receio esteja presente em todos nós neste momento das nossas vidas, tem sido bem mais fácil de lidar com este confiamento Covid do que foi durante aquelas horas em Israel. 

Cuidem-se.

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