BOLA À TRAVE

DOMENIK MARTINHO

Treinador de Futebol UEFA B

Licenciado em treino desportivo Pós graduado em Gestão e Marketing do Desporto

O que é ser bom treinador?

Quem nunca desejou ser um treinador de sucesso como José Mourinho, Pep Guardiola ou até mesmo Sir Alex Ferguson? Todos os treinadores exprimem esse desejo. Todos os títulos que eles ganharam e que continuam a ganhar dependem de quê? Esta questão é a mais intrigante de todas.

De que depende o sucesso de um treinador? Da sua cultura tática? Do estudo dos adversários? A resposta é muito simples, mas ao mesmo tempo, muito complexa. Depende acima de tudo da sua liderança.

O treinador tem que ser um líder, e para se ser líder, tem que existir pessoas que queiram ser lideradas, ou seja, os jogadores devem ser liderados pelo treinador.

Ser um líder não é uma questão de poder. Um líder é um orientador, um motivador, um superador e acima de tudo um exemplo. Este tem de ter uma visão mais além, tem que prever situações, tem que agir em conformidade para que as situações se resolvam da melhor forma. Não deve resolver os problemas de uma forma eficaz no momento, deve acima de tudo, ver as consequências no futuro.

Quanto melhor for o líder, melhores serão os resultados e porquê? Porque o líder consegue tirar o melhor rendimento dos seus jogadores e como se sabe, quanto melhor for o rendimento dos seus atletas, maior é a probabilidade de se vencer um campeonato.

Para se saber como funciona um líder temos primeiro que falar sobre o desporto rei em Portugal, o futebol. O futebol é um espetáculo desportivo que é jogado por pessoas, assistido por pessoas e orientado por pessoas. Repeti a palavra “pessoas” propositadamente, pois é aqui que se inicia a ligação para o líder de sucesso.

O treinador-líder, tem de perceber que os seus jogadores, antes de serem jogadores, são pessoas. Quem entende perfeitamente isso consegue liderar melhor a sua equipa, pois os jogadores sentem que podem confiar no seu treinador. O treinador deve estar sempre disponível para os seus jogadores. Eles devem confiar nele, ao ponto de falarem sobre assuntos pessoais.

A comunicação é essencial para um treinador-líder, ela deve ser realizada de forma a que o jogador não a veja como uma obrigação, ou seja, o treinador não deverá utilizar a expressão “tens de...”, mas sim “deves...”. A forma como se fala causa reações diferentes nos jogadores e são essas reações que afetam negativa ou positivamente o seu desempenho no jogo.

Como se sabe o futebol é jogado em equipa. Desta forma, cabe ao líder formar uma equipa e não um grupo. Deverá ainda explicar, acima de tudo, aos seus jogadores a diferença entre equipa e grupo. Então, qual é a diferença entre grupo e equipa? Um grupo é um conjunto de indivíduos que pretendem atingir o mesmo objetivo sem dependerem uns dos outros. Uma equipa é um conjunto de indivíduos que têm objetivos comuns, mas que dependem uns dos outros para os conseguirem atingir.

O treinador-líder deverá transmitir aos seus jogadores o significado de equipa e isso deve estar bem presente na cabeça de cada um deles, seja no balneário, num treino ou num jogo.

Falemos então no jogo. Cada vez mais os jogos são ganhos ou perdidos devido a pormenores. O maior pormenor é a concentração. A equipa que consegue estar mais tempo concentrada no jogo, provavelmente consegue garantir a vitória. Para os adeptos existe ainda outro fator que tem influência no resultado, que é a sorte ou o

azar. A sorte ou azar é um fator que depende da concentração. Imaginemos que um jogador não chega á bola por meros centímetros e devido a isso não introduz a bola na baliza. A reação dos adeptos é de afirmar que foi azar, o que na realidade foi uma falta de concentração por meros milésimos de segundo, ou seja, se o jogador estivesse concentrado estava mais próximo da zona onde a bola iria estar e conseguiria introduzir a bola na baliza. E como se reduz estas faltas de concentração? Através de exercícios mais complexos nos treinos. Exercícios que sejam mais exigentes mentalmente do que fisicamente e desta forma reduz-se a falta de concentração.

Articulemos agora com estado emocional do jogador. O pior das derrotas no futebol não é o cansaço físico acumulado após cada jogo, mas sim o cansaço psicológico, porque independentemente da vitória ou da derrota, o cansaço físico é o mesmo. Contudo, e como se diz na gíria do futebol, trabalhar sobre derrotas é mais difícil do que trabalhar sobre vitórias. Então o que fazer ou dizer aos jogadores quando se perde? O treinador deve apelar ás emoções, ou seja, perguntar aos jogadores como se sentem após a derrota. Após obter a resposta colocar uma outra questão, “gostam de se sentir assim?”, ao que provavelmente os jogadores irão responder que não. Sir Alex Ferguson dizia muitas vezes aos seus jogadores para se lembrarem da dor da derrota para que quando estivessem em campo, evitassem ao máximo ter essa dor. Traduzindo para uma forma mais simplista, superem-se para não perder e não voltarem a sentir aquela dor. Esta afirmação garantiu-lhe a vitória de uma Champions League contra o Bayern Munique, em que a sua equipa estava a perder por 1-0 e ganhou 2-1, marcando ambos os golos no desconto de tempo.

“Todas as derrotas são culpa do treinador”, quantas vezes ouvimos esta frase? Muitas. E quantas vezes ouvimos um treinador a dizer que a derrota foi por culpa dele? Praticamente nenhuma. Este treinador não é um líder, pois um líder tem de ter a capacidade de lidar com o fracasso, tem de ter a capacidade de aguentar com a “pressão”. Um líder de verdade assume os erros e coloca toda a pressão sobre si mesmo, para que os jogadores se possam concentrar apenas nos jogos, sem qualquer tipo de pressão. O que vai despontar isto? O jogador, provavelmente, irá superar-se.

O treinador deve, ainda, promover nos jogadores de que as vitórias são deles, mas acima de tudo são pelo clube. Contudo, as derrotas são culpa do treinador. Mas existe sempre aquele adepto que afirma que a derrota foi causada por um “frango” do guarda-redes. Neste caso a culpa é de quem? Obviamente do treinador, ele é que decidiu quem iria jogar. O treinador também erra, mas deve ter a capacidade de saber lidar com o erro. Para terminar, o treinador deverá clarificar aos seus jogadores de que nenhum jogador deverá colocar os seus interesses acima dos interesses da equipa. Por exemplo, vão dois jogadores isolados para a baliza, apenas com o guarda-redes pela frente, um deles vai com a bola controlada enquanto que o outro vai ao seu lado. A poucos metros do guarda-redes, o jogador que tem a bola controlada, pensa que se marcar golo é melhor para ele (podem estar olheiros a observar o jogo), mas se passar para o outro colega a probabilidade de ser golo é muito maior. O que deve fazer? Passar para o lado e colocar os interesses da equipa acima dos seus.

Os treinadores referidos no inicio do texto, foram e são treinadores de sucesso, e têm estas características de liderança em comum. Será que se agir desta forma serei um bom treinador? Aliado ao estudo do futebol em termos táticos e estratégicos, provavelmente sim. Nunca esquecendo de que a superação e o trabalho são grandes impulsionadores para o sucesso, independentemente da divisão em que treinemos.

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