Do Futebol

TIAGO OLIVEIRA

MAR. 17, 2020

Somos Marega? Marega não foi o primeiro atleta alvo de insultos racistas num estádio de futebol. E infelizmente não será o último. Nélson Semedo também revelou depois do caso de Guimarães que esteve perto de abandonar uma partida devido ao mesmo tipo de insultos

Somos Marega? Marega não foi o primeiro atleta alvo de insultos racistas num estádio de futebol. E infelizmente não será o último. Nélson Semedo também revelou depois do caso de Guimarães que esteve perto de abandonar uma partida devido ao mesmo tipo de insultos. Eto’o quando atuava no Barcelona esteve quase para o fazer e Roberto Carlos fê-lo mesmo, quando estava ao serviço da equipa russa do Anzhi, tal como Zoro quando atuava no Messina. Prince Boateng também o fez num jogo particular contra uma equipa da quarta divisão italiana, mas neste caso foi acompanhado por toda a equipa do Milan. Mas quantos mais? Balotelli, Daniel Alves, Henry, Desailly, Touré, Hulk, Evra, Asamoah, Koulibaly, Muntari, Rüdigger, Mutuidi… O “episódio Marega” não deve, por isso, ser “clubificado”, ao contrário do que se tentou fazer, lamentavelmente, principalmente na rede social Facebook. Não se trata deste jogador ser ou não ser atleta do FC Porto. Aliás, o clube “azul e branco” pode até entretanto vir a ser castigado pelo facto de adeptos seus terem também eles protagonizado um episódio de racismo contra o jogador do Moreirense Abdu Conté. A este propósito não nos esqueçamos que o Rio Ave já foi, há algumas épocas atrás, multado, por também os seus adeptos terem proferido insultos racistas contra Renato Sanches. Efetivamente, o que se passa, é que o problema do racismo nos estádios de futebol é apenas uma faceta de uma patologia mais profunda que se verifica nestes espaços. Infelizmente os estádios de futebol são cada vez menos locais para famílias e cidadãos civilizados. Hoje em dia não é, por exemplo, um comportamento propriamente didático levar uma criança a assistir a um jogo de futebol, pelo menos dos três “grandes” nacionais, já que os respetivos estádios tornaram-se não poucas vezes locais de impropérios e atos violentos protagonizados por delinquentes e energúmenos que já há muito tempo deviam ter sido banidos dos mesmos. A luta de Frederico Varandas no Sporting CP é precisamente contra essa gente, uma luta de não cedência a hordas de desordeiros e criminosos que se acham donos dos clubes e muitas vezes se assemelham mesmo aos braços militares que os movimentos de extrema-direita tiveram há cerca de um século atrás. Mas o que fazer quando o fenómeno futebolístico e nomeadamente o clubístico é vivido de forma violenta no próprio quotidiano, e essa patologia comportamental manifesta-se em contextos de trabalho, de família ou em espaços públicos? Na minha opinião, este é um fenómeno que virá no futuro a ser profundamente investigado por especialistas em História das Mentalidades, tendo em conta as fraturas que tem originado no tecido social. Agora, é altura de, se por um lado, cultivar, principalmente junto dos mais jovens, os princípios da ética desportiva, por outro, é também tempo do poder político intervir de forma veemente e decisiva no fenómeno futebolístico nacional e interditar o acesso aos estádios aos espetadores que já mostraram ser “personas non gratas” para estes locais. Ou ficaremos, à boa maneira portuguesa, à espera que mais desgraças ocorram em estádios de futebol para se mudar alguma coisa e ficar tudo na mesma? Que o atual momento que infelizmente se tem vivido devido à pandemia do novo corona vírus esteja a ser aproveitado, também, para num ambiente de menor “frenesim” quotidiano e maior introspeção, se refletir sobre estas (e outras) questões...

+351 917 777 418

  • White Facebook Icon

Segue-nos

Bairro Filomena, N° 7 B - 2530-806 Vimeiro