De Bola Parada

GUILHERME RAMOS

MAR. 23, 2020

Literalmente num período de DE BOLA PARADA, a verdade é que a nossa cabeça não pára e tem sido um momento fértil para trazermos à memória recordações e histórias passadas, pelo que aceitei o desafio de todos os meses partilhar algumas daquelas que foram as situações mais “curisosas” pelas quais já passei, quer nos tempos em que jogava, quer já durante a minha ainda curta carreira enquanto treinador.

Literalmente num período de DE BOLA PARADA, a verdade é que a nossa cabeça não pára e tem sido um momento fértil para trazermos à memória recordações e histórias passadas, pelo que aceitei o desafio de todos os meses partilhar algumas daquelas que foram as situações mais “curisosas” pelas quais já passei, quer nos tempos em que jogava, quer já durante a minha ainda curta carreira enquanto treinador. Já que estamos neste período de confinamento, quero partilhar convosco que isto de Confinamento não é novidade para mim, ainda que noutras circunstancias. Recuemos ao Verão de 2018 até à cidade de Be’er Sheva em Israel a não mais de 40 km da Faixa de Gaza. Jogávamos a 1ª mão da 3ª pré-eliminatória da Liga Europa num duelo de “(H)APOEIS”, o nosso de Nicósia e o “deles” de Be’er Sheva. De recordar que uma semana antes tinha-me deslocado sozinho a Israel para assistir à final da Supertaça e assim poder observar uma vez mais, agora ao vivo, o nosso adversário e a verdade é que regressei ao Chipre com uma maravilhosa opinião acerca da segurança no país, ainda que conhecesse a realidade dos conflitos. Uma semana depois, o regresso a Israel com toda a equipa. Na manhã do jogo é altura onde por norma ultimo todos os pormenores, nomeadamente no que às BOLAS PARADAS diz respeito. Assim, depois de almoço, já com os jogadores recolhidos nos quartos e a descansar, é hora de descer do 15º andar do meu quarto rumo à recepção do hotel a fim de imprimir todas as bolas paradas e sair para andar um pouco à volta do hotel para descomprimir. Longe de imaginar o que se iria passar quando a porta do elevador se abrisse no “ground floor”. Agora peço-vos que visualizem tudo isto à boa maneira de “Matrix”, em camera lenta, onde tudo o que vos vou escrever aconteceu em menos de 10 segundos. A porta do elevador abriu…dou um passo em frente…oiço uma estrondosa explosão e imediatamente uma ainda mais estrondosa sirene da cidade que entrava pela cabeça dentro…olho para a esquerda (rua) vejo pessoas a correr, atirarem-se para o chão, largando tudo o que tinham nas mãos… olho para a direita (zona da piscina) e vejo pessoas a sair da água a correr, mesas da esplanada e cadeiras pelo ar e gritos…olho em frente em vejo pessoas a correr de um lado para o outro no hotel, sem rumo… e por entre esta confusão e um amontoado de pessoas, olho para a recepção e vejo um funcionário do hotel a chamar-me desesperado, segurando uma porta…e arranco, pelo meio da confusão com um sprint de fazer inveja aos meus jogadores e entro nesta entrada que se encontrava disfarçada bem ao lado da recepção… a porta fechou e aparentemente estava a salvo… de recordar que 10 segundos passaram desde que a porta do elevador abriu até este momento. explosao 2.jpg explosao 1.jpg Vejo umas 15 pessoas entre elas o meu presidente dentro de uma sala de 10m2 cinzenta e escura, apenas com um LCD na parede ligado… Estávamos numa “sala de pânico” sem saber ao certo o que se estava a passar. Um dos recepcionistas disse-nos então que a cidade estava a ser alvo de ataques e como tal teríamos de ficar ali confinados… ou seja, a minha primeira experiência de “Confinamento” numa sala de pânico, em Israel, com explosões lá fora, a poucas horas de um jogo europeu. 45 minutos passados e com o aliviar da Sirene, conseguimos sair da sala de pânico e recolher aos quartos ainda que naturalmente impedidos de sair do hotel. Nesta altura e começando a ver as noticias, apercebemos-nos do incrível facto de que há 5 anos não existia qualquer tipo de ataque vindo de gaza… tinha mesmo de acontecer precisamente naquele dia…Foram lançados 60 rockets em direção a Be’er Sheva sendo que os anti-rockets destruíram 56… passaram 4. Foram horas de tensão vividas ansiosamente por todo a comitiva na expectativa do que iria acontecer. O jogo esse, ficou em suspenso até quando faltavam apenas 2 horas para o apito inicial e a UEFA considerou haver condições de segurança para se jogar. Naturalmente e por mais que nos quiséssemos abstrair, havia uma certa apreensão com o “fantasma” que um novo ataque pudesse acontecer sobretudo no estádio, que estava repleto com quase 20.000 pessoas. campo vazio.jpg entrada em campo.jpg 90 minutos depois, saímos de Israel com um empate 2 bolas o que nos permitiu uma semana depois confirmar o apuramento à próxima fase da competição com uma vitória por 3-1 em Nicósia. Mais do que o jogo, e uma história para contar, esta foi a minha primeira experiência no que toca a “confinamentos”, e como tal, ainda que a situação e o receio esteja presente em todos nós neste momento das nossas vidas, tem sido bem mais fácil de lidar com este confiamento Covid do que foi durante aquelas horas em Israel.

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