Bola p'ra Frente

NELSON AUGUSTO

MAR. 20, 2020

As opiniões divergem quando se fala no papel dos encarregados de educação no plano desportivo. E será que há alguma teoria verdadeiramente correcta?

As opiniões divergem quando se fala no papel dos encarregados de educação no plano desportivo. E será que há alguma teoria verdadeiramente correcta? Uns dizem que têm o direito de opinar, e vêm os críticos dizer que não, quem mada é o treinador. Outros defendem que não, a decisão é de quem treina, mas os restantes críticos dizem que os meninos só andam no futebol porque os pais o metem lá, logo têm direito a opinar. Enfim, dá pano para mangas uma discussão inerente a este assunto.
Ao longo de já mais de uma década a treinar escalões de formação, que diga-se é a minha paixão, já ouvi de tudo e mais alguma coisa de bom e de mau. E já lidei com atletas dos 4 aos 19 anos de idade, em todos os escalões de formação à excepção dos Infantis, onde me conto estrear em 2020/21. Desde treinador principal de petizes, traquinas, benjamins A e B, iniciados C1 e iniciados e adjunto em juvenis e juniores, convivi de perto com todas as faixas etárias e respectivos pais (para além de irmãos, tios, avós, primos, etc.). 
Perante a complexidade deste assunto nem tão pouco estou à vontade para me achar certo ou errado. Resta-me apenas ser eu mesmo, fiel aos meus princípios e ciente do meu trabalho que, à semelhança dos meus colegas treinadores, tem uma importância fulcral na educação dos jovens, funcionando como um complemento à escola e à sua vertente familiar. E é aqui que acho importante sabermos relacionar os pais e o treinador, estarem minimamente sintonizados, sobretudo nas idades mais tenras, estreitando laços e permitindo uma maior e mais produtiva interacção com os atletas quer na vertente individual que na vertente colectiva do desporto onde estamos inseridos. 
Se por um lado, nas idades dos atletas do futebol 11, eles já são um pouco independentes, pelo menos nas acções que praticam, e já decidem muito pela sua cabeça sem por vezes ligar patavina ao que o pai e mãe dizem, no futebol de 7 e abaixo, são ainda extremamente dependentes e influenciados por aquilo que lhes é transmitido em casa, por aquilo que é afinal a educação de cada um. Claro que cada caso é um caso mas nas idades até aos 12 anos essa dependência é mais acentuada, e todas e quaisquer situações negativas são por norma mais vincadas e sentidas pela criança, podendo naturalmente afectar o seu desempenho não só desportivo, mas também escolar, familiar ou social. E é por qualquer um destes factores que defendo uma relação activa entre treinador e encarregado de educação, numa vertente que permita ao treinador, que apenas convive com o atleta nas horas de treinos e jogos, saber lidar com alguns comportamentos anómalos que possam surgir nesse mesmo atleta. Será importante ao treinador saber manter essa relação estritamente saudável, ou seja, que seja apenas dirigida ao bem estar do atleta enquanto ser humano e não interfira com as decisões técnicas e tácticas que a cada minuto de jogo temos de pensar em manter ou alterar consoante o rumo dos acontecimentos.
Pegando no meu caso pessoal, sou adepto de ouvir as opiniões de quem viu o jogo de fora, partilhar minutos com os pais e familiares a esmiuçar o que de bom e menos bom se fez, ouvindo opiniões e agradecendo críticas construtivas, sem me desviar da minha linha de orientação. É importante sabermos definir essa linha e não dar aso a que alguém de fora queira, e acima de tudo consiga, influenciar as nossas opções e tomadas de decisão. E acima de tudo saber fazer os pais perceberem que quando estão na bancada terão de despir levemente a camisola de pai e vestir a de adepto, e lembrarem-se que, mesmo que o seu foco maioritário seja o seu filho, estão ali a apoiar uma equipa, um colectivo de 10, 12 ou 15 crianças que vestem camisolas iguais nas quais só diferem o número estampado nas costas. Quanto mais adepto conseguir ser, melhor pai no campo desportivo está a conseguir ser. E se ao invés de ter um pai em casa a dizer uma coisa e um treinador no campo a dizer outra, se todos seguirem a mesma linha de guia, será mais fácil ajudar o atleta a festejar as suas conquistas, mas mais importante que isso, a ajudá-lo a lidar com os seus insucessos e frustrações. Acima de tudo, é importante deixar as crianças serem felizes, sem pressões, sem medos, e mantê-los sempre de cabeça erguida.
A todos os encarregados de educação na verdadeira aceção do termo, o meu obrigado.

+351 917 777 418

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