Alerta CM

PEDRO CALDAS

30 Abril, 2020

Estamos a perder e falta pouco tempo para terminar. O relógio não volta atrás. Os erros cometidos também não. Há duas equipas a jogar mas só uma bola.

Alerta CM: Ganhar a Bola, já! Texto: Pedro Miguel Caldas Treinador de Hóquei em Patins Estamos a perder e falta pouco tempo para terminar. O relógio não volta atrás. Os erros cometidos também não. Há duas equipas a jogar mas só uma bola. Para remediar os males do resultado negativo, é preciso ter a bola. Sem termos a bola, não marcamos golo, é verdade. No entanto, nem só ter a bola pode ser suficiente. O sítio onde se ganha a bola conta e muito. Ganhar a bola e ter sempre quatro elementos da equipa adversária entre a bola e a baliza contrária é positivo mas, mais positivo, é ter a bola com nenhum, um, dois ou três oponentes pela frente. A ideia que aqui exponho serve esses dois efeitos perante a situação de resultado negativo. Um: ganhar a bola. Dois: ganhar a bola com o adversário posicionado em ataque organizado e sem capacidade de fazer uma transição defensiva a tempo de parar o contra-ataque em superioridade numérica, aumentando e muito a possibilidade de fazer golo. A ideia surgiu do nada, num dos muitos jogos que já vi da seleção espanhola. Contudo, este lance só me veio à mente naquele e, claro, nos posteriores a esse. O lance veio do Jordi Bargalló e do Pedro Gil num qualquer encontro do Mundial 2011, em que o Pedro Gil se coloca na linha de passe para o seu oponente direto, fazendo com que o portador da bola pusesse a mesma nas suas costas, onde iria aperecer o atacante que estava a ser marcado pelo hoquista espanhol. A intercetar o passe apareceu Jordi Bargalló que estava a marcar outro jogador na área e que, lendo muito bem o lance, cortou o passe e fez contra-ataque em superioridade numérica. A partir daí vi várias vezes o Pedro Gil fazê-lo mas nunca com a certeza se seria propositado para que o colega de equipa mais próximo intercetasse o passe. Que importa, eu vi, gostei e peguei na ideia. Pu-la em prática pela primeira vez em 2012/2013. Tinha equipa para isso. Quatro elementos do cinco inicial que me davam as garantias de: leitura de jogo, capacidade de pressão e de antecipação dos lances. São estes os dados fundamentais para o sucesso do movimento. Fazendo a legenda do quadro em anexo, capacidade de pressão ao portador da bola para que ele não pense muito e tome uma decisão rapidamente (quanto mais rápido, mais provável de tomar uma má decisão); capacidade de antecipação do elemento que marca o adversário que está na área para interceção do passe (e o mesmo se pode dizer para o elemento que está a defender o adversário junto à tabela, porque também pode intercetar o passe e criar situação de contra-ataque aí, apesar de que normalmente o portador da bola coloca-a no sítio com mais espaço que será no miolo do meio-rinque); leitura de jogo por parte dos defesas que podem intercetar a bola mas também do elemento que deixa de defender o seu adversário direto para se colocar à zona, motivando o adversário a desmarcar-se nas costas. Apesar de não ser obrigatório colocar cada um dos elementos na sua posição específica para o efeito (ou seja cada um podia fazer qualquer posição), cada elemento tinha características próprias para cada posição. O Fábio Cambão e o Diogo Miranda eram os elementos da interceção de passe pela sua capacidade de arranque, o Nuno Lopes era o elemento que passava a defender à zona pela sua leitura de jogo e inteligência, o Francisco Granadas era o elemento da pressão ao portador da bola pela sua capacidade física e de roubo de bola. Além disso, e o mais importante de tudo, tinham todos muita confiança entre si dentro de pista. Pareciam uma orquestra, cada um, com as suas características, complementava-se e por isso eram uma excelente equipa. Apesar de termos falhado o apuramento para o Nacional e de aplicarmos este movimento com equipas mais fracas ou com o mesmo calibre da nossa - e muitas vezes a ganhar o jogo, ou seja, sem a pressão de virar o marcador - a verdade é que resultava lindamente. Não é expectável que resulte muitas vezes num jogo mas se resultar uma vez já será excelente, pois permitirá que o nosso elemento mais avançado receba a bola isolado. Ainda assim, conseguíamos fazê-lo muitas vezes. Naturalmente, e depois do sucesso com este grupo de atletas, tentei aplicar mais duas vezes, uma nos Sub17 no mesmo ano e outra em Sub15 em 2018/2019. Em ambas, não resultou, por duas razões distintas. Na primeira havia capacidade física e qualidade mas não havia coordenação, na segunda não havia leitura de jogo suficiente. Ou seja, se os jogadores não atuam como equipa, é impensável colocar em prática um movimento que exige a coordenação total dos quatro elementos, pois se um não pressiona a bola, ou se aquele que defende à zona ou o que vai intercetar o passe posicionam-se mal, algo vai falhar, permitindo ao adversário mais facilidade em chegar à baliza, em vez de dificuldade. O mesmo se aplica à falta de leitura de jogo, porque o jogo não pára para que façamos o movimento. Ele tem de ser feito no decorrer do encontro, de forma rápida e pouco vistosa. Por exemplo, quem está na área defensiva tem de perceber o movimento do elemento de equipa que está à sua frente, passando de defesa individual a defesa à zona e quando a bola está no lado contrário. Isto exige muita leitura de jogo, concentração, confiança e conhecimento entre os atletas, porque não vai tocar nenhum sino a avisar que é para fazer o movimento. Por isso não é qualquer equipa que o faz e, claro, além disso, exige muito treino. Nunca mais tentei fazê-lo, quiçá um dias destes volte a tentar, quando achar que existam condições para tal. No entanto, não deixa de ser engraçado e gratificante que, quando reencontro estes atletas, ainda me falem deste movimento. Foi a última época que os treinei - já lá vão sete anos - mas ficou-lhes na retina, o que é sinal de que serviu para o seu enriquecimento tático enquanto atletas. Só para acabar, o ‘alerta CM’ do título não tem nada a ver com o texto, simplesmente não tinha nada para colocar no título e como a CMTV é dos canais mais vistos em Portugal, achei que era um bom isco para vocês lerem o artigo.

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